Revista  Enfermagem Atual

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O ensino de enfermagem a luz da dialética marxista: uma reflexão acerca da prática pedagógica

Nursing education the light of the marxist dialectic: a reflection on the pedagogical practice
  • Iellen Dantas Campos Verdes Rodrigues
  • Viviane Euzébia Pereira Santos
  • Alexsandra Rodrigues Feijão
  • Bárbara Coeli Oliveira da Silva
  • Vinicius Lino de Souza Neto
  • Richardson Augusto Rosendo da Silva

Declaração da ausência de conflitos de interesse: Os autores declaram não haver conflitos de interesse nem fontes de financiamento.

RESUMO

Objetivo: Refletir sobre as práticas pedagógicas para o ensino-aprendizagem na formação do enfermeiro sob a perspectiva dialética de Karl Marx. Metodologia: Trata-se de uma reflexão acerca dos modelos de ensino utilizados na prática pedagógica de enfermagem, optou-se por pensar sobre as contradições inerentes ao processo de ensino-aprendizagem na atualidade a partir da dialética marxista. Resultados: Foram apontados nesse percurso dialético dois modelos que norteiam o ensino de enfermagem, o modelo tradicional e o modelo baseado na aprendizagem-significativa por meio do uso de metodologias ativas, fazendo-se um contraponto com as exigências do mercado para a formação do enfermeiro no século XXI. Conclusões: A dialética Marxista aplicada ao ensino de enfermagem contribui para reflexão entre os professores e alunos acerca da prática docente e do ensino-aprendizado, podendo auxiliar na escolha de um modelo de ensino significativo, que permita, além de uma formação discente consciente e a realização do docente, a melhoria da práxis de enfermagem.

Palavras-chave: Ensino; Educação em Enfermagem; Enfermagem.


SUMMARY - Objective: To reflect on teaching practices for teaching and learning in nursing education in the dialectical perspective of Karl Marx. Methodology: This is a reflection on the teaching models used in teaching nursing practice, it was decided to think about the contradictions inherent in the teaching-learning process at the present time from the Marxist dialectic. Results: We pointed this dialectical path two models that guide the nursing education, the traditional model and the model based on learning-significant through the use of active methodologies, making it a counterpoint to the market requirements for nursing education in the XXI century. Conclusions: The Marxist dialectic applied to nursing education contributes to reflection among teachers and students about teaching practice and the teaching-learning to assist in choosing a meaningful educational model which enables addition of a conscious student training and the achievement of teaching improving the nursing practice.

Keywords: Teaching; Education, Nursing; Nursing.

INTRODUÇÃO

A educação está presente em todas as sociedades, sendo parte de sua construção, continuidade e legitimação. Faz-se presente nas trocas de saberes, fundamental para a continuidade de costumes, crenças e tradições, e, é nessa perspectiva que se pode verificar sua magnitude, visto que as populações se mantêm por meio dos costumes de determinados grupos. No capitalismo, a educação é transmitida conforme as exigências impostas pelo mercado consumidor, ávido por mão-de-obra jovem e diplomada. É, nesse contexto, que a educação transforma-se em ensino, decorrente dos conflitos de interesses e da divisão do trabalho e do poder, que culminam com a divisão social e consequente divisão do saber1.

Essa transformação da educação em ensino e o advento da pedagogia atrelou o termo educação aos centros escolares, no entanto, o atual modelo escolar não é peculiaridade da modernidade, desde a Grécia antiga pode-se observar o desenvolvimento de um modelo educacional similar ao atual2.

A princípio, o acesso ao ensino nas escolas foi predominantemente masculino, sendo destinado às mulheres um conhecimento que contemplasse competências domésticas de modo que pudesse ser utilizado para posterior benefício do homem3.

Na saúde, a figura de Florence Nightingale destacou-se ao proporcionar um novo papel para a mulher na sociedade, eis que surge a enfermagem enquanto profissão, a qual requer treinamento prático e específico, com base teórica e científica. No contexto, institucionaliza-se o ensino de enfermagem e a profissão adentra ao universo científico, no qual a qualidade do ensino, no decorrer dos anos, desconstrói o préconceito oriundo das bases predominantemente femininas de uma profissão inserida em um mercado capitalista reconhecidamente masculino.

Atualmente, ao se considerar as dificuldades inerentes ao processo de ensino-aprendizagem e a exigência da formação de profissionais críticos e reflexivos, é mister se pensar sobre o processo de formação dos enfermeiros, os quais estão inseridos enquanto estudantes em um modelo tradicional de ensino que se contrapõe às rápidas transformações e inovações do meio científico.

Face ao exposto, torna-se necessário refletir sobre os métodos de ensino da Enfermagem para o construto da formação critica e reflexiva do profissional enfermeiro. Frente a este cenário, objetivou-se refletir sobre as práticas pedagógicas para o ensino-aprendizagem na formação do enfermeiro sob a perspectiva dialética de Marx.

O ENSINO DE ENFERMAGEM E A PERSPECTIVA MATERIALISTA DIALÉTICA DE KARL MARX

O aprimoramento do conhecimento levou o homem a utilizar-se de teorias para a compreensão do mundo, que na experiência objetiva contemplassem todos os aspectos da vida, incluindo a relação do homem com a realidade. Desse modo, o Materialismo destacou-se como concepção filosófica que compreende a realidade em forma de matéria em movimento. O homem de Marx nega sua condição de ser determinado pela história, mas apresenta-se como agente de transformação dessa, sendo a práxis, a primazia desta relação4-5.

Compreende-se, então, a educação como ferramenta de transformação nas mãos do homem, que ao interpretar a realidade, produz o conhecimento necessário para modificala. Assim, a educação deve se apresentar como perspectiva emancipadora, permitindo ao homem modificar a realidade em que está inserido.

A priori, o ensino tradicional de enfermagem incumbe-se da transmissão de conhecimentos específicos da profissão, há a valorização dos aspectos biológicos e o corpo nada mais é que um conjunto de partes, às quais se destina uma atenção peculiar e individual. O contributo dessa forma fragmentadora de ensino é observado diariamente na prática assistencial de enfermagem, em que o enfermeiro destina sua ação a tratar a afecção que aflige seu cliente, atuando pontualmente sobre uma determinada situação de saúde.

Essa dinâmica de ensino-conhecimento e ação mascara uma contradição na formação do profissional enfermeiro, a enfermagem é uma profissão com raízes no ensino, no entanto, não forma para tal. Uma explicação mais plausível seria que o enfermeiro é instruído com vistas a desempenhar habilidades educativas, mas não é preparado para ser um educador. Tal fato pode estar relacionado ao processo de consolidação do ensino de enfermagem no Brasil que, a princípio, deu-se de forma conflitante, sendo institucionalizado para atender necessidades pontuais de saúde sem a preocupação com uma formação crítica-reflexiva. Atualmente, vivencia-se uma expansão desenfreada das escolas de enfermagem no Brasil em face das políticas públicas de educação, com um aumento quantitativo superior ao qualitativo, com intuito de acompanhar o desenvolvimento do País, em detrimento às reais necessidades de saúde da população. No entanto, o desenvolvimento econômico remete à necessidade de mão de obra cada vez mais qualificada, o que exige da enfermagem um corpo docente especializado e de qualidade para atuar na formação desses profissionais, daí a expansão dos cursos de pós-graduação nível mestrado e doutorado em enfermagem.

Assim, vislumbrando o cuidado ao humano como objeto principal da enfermagem temo-na como uma ciência que deve transitar por entre as diversas áreas do conhecimento, a fim de melhor compreender e desempenhar o seu papel, o cuidado. Desse modo, o ensino na enfermagem deve perpassar o campo do saber específico da profissão, indo além-muros da academia, de forma a impelir no acadêmico a constante reflexão sobre sua ação e atuação na realidade em que se insere.

Nesse contexto, o ensino de enfermagem deve ser concebido de forma dinâmica, possibilitando ao graduando desenvolver, principalmente, autonomia em relação ao seu aprendizado. O professor é o meio, o elo entre o aluno e o conhecimento, mas o aluno é o fim, é o aprendiz que internaliza o saber, logo deve ser o responsável por seu aprendizado.

Face à dualidade presente no modelo de ensino da enfermagem, é notória a necessidade de uma nova concepção acerca do processo de ensino-aprendizagem. É preciso conceber o ensino-aprendizagem como fenômeno ativo e enérgico, e não somente como uma combinação de conteúdos acrescidos aos anteriormente adquiridos6. Somente nessa perspectiva, é possível formar profissionais crítico-reflexivos e não apenas espectadores e reprodutores de técnicas e saberes pré-estabelecidos.

O método dialético de Marx, aplicado ao ensino de enfermagem, centra-se na relação antagônica entre os papéis “socialmente construídos” de docente e discente, no qual o primeiro detém o conhecimento a ser transmitido de forma passiva ao aprendiz. Assim, a dialética marxista possibilita ao professor refletir acerca do perfil centralizador, oriundo do contexto histórico educacional, e adquirir a competência dialógica, a qual a partir da escuta deve permitir-lhe compreender o aluno e empoderá-lo, sem interferir em seu processo de aprendizagem. Desse modo, o docente assume o papel de orientador e, nessa visão de ensino, o discente é estimulado a buscar e produzir o próprio conhecimento refletindo sobre o que lhe é apresentado.

Com fins de sanar a carência determinada pelo processo tradicional de ensino, as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para o curso de enfermagem apresentam-se como aliadas importante à prática pedagógica, visto que orientam para a flexibilização curricular, a integração de conteúdos e a formação por competências7.

Nesse contexto, o modelo conceitual baseado em competências mostra-se de valia às escolas de enfermagem, que visam à formação de profissionais qualificados. O modelo de ensino baseado na Teoria da Aprendizagem Significativa é uma ferramenta útil a essa “nova” prática pedagógica que se almeja para a enfermagem, visto que tal abordagem valoriza o conhecimento como processo construtivo e atrelado à estrutura cognitiva do aprendiz8.

São ofertadas ao professor novas possibilidades de orientar sua prática profissional, cabendo-lhe refletir acerca da que melhor suprirá o que lhe é exigido, ou seja, que lhe norteará na formação de enfermeiros dotados de saber técnico-científico, bem como de capacidade reflexiva. As Metodologias Ativas incluem-se dentre essas possibilidades, e ganham destaque nas práticas docentes de enfermagem.

Por Metodologias Ativas entendem-se as estratégias utilizadas pelos docentes no desenrolar do percurso da aprendizagem, que auxiliam o professor na formação crítica do educando. Sua aplicação na prática pedagógica estimula o interesse em aprender e a autonomia do discente. No cenário do ensino superior de saúde, destacam-se como Metodologias Ativas, a problematização, que desafia o aprendiz mediante problemas, conferindo-lhes capacidade de examinar, refletir e posicionar-se de forma crítica. A aprendizagem baseada em problemas (PBL), que se vale de problemas da realidade para estimular no estudante o pensamento crítico, a solução de problemas e a aquisição de conhecimentos. E os grupos operativos, que caracterizam o processo de aprendizagem grupal como uma dialética, face à análise das contradições que permeiam sua prática9.

A reflexão dialética acerca do ensino de enfermagem apresenta como contribuição a exposição dos contrapontos existentes nos atuais modelos de ensino, o que possibilita uma ponderação sobre o modelo centralizador, de transmissão de conhecimentos, e um novo olhar para o modelo inovador, que transforma o professor em condutor e mediador da busca pelo conhecimento. Nesse contexto, o pensar nos moldes do modelo dialético de Marx não tem por objetivo induzir o professor a escolher entre um ou outro modelo a ser adotado em sua prática, mas fazê-lo repensar seu papel enquanto docente, conferindo-lhe liberdade na escolha da melhor opção para atender suas necessidades individuais e sociais, bem como da formação discente.

Cabe, então, ao docente refletir sobre sua prática no que cerne ao cumprimento do que lhe é preconizado e a constante dialética que permeia a função de educar, e, assim, decidir-se entre permanecer nos moldes tradicionais de ensino ou valerse das metodologias ativas para nortear o processo de ensinoaprendizagem.

CONCLUSÕES

A dialética facilita o processo reflexivo no contexto do ensino de enfermagem a partir do diálogo e reflexão contínua e constante entre docentes e discentes, possibilitando ao graduando pensar sobre o saber adquirido e sua aplicação na prática, favorecendo assim a práxis de enfermagem. Ao professor cabe meditar sobre seu método de ensino, de modo que o permita valorizar o aprendiz enquanto sujeito ativo no processo de ensino-aprendizagem.

Nessa perspectiva contemporânea, aponta-se que o ensino de enfermagem com base na aplicação de metodologias ativas favorece o processo de aprendizagem significativa e amplia o alcance do conhecimento produzido. Além de disponibilizar ao mercado profissionais capacitados e aptos a modificar a realidade vigente. O professor assume, então, função ímpar nesse ciclo transformador, visto que norteará o caminho rumo ao conhecimento.

Vale ressaltar, a importância do autoconhecimento como habilidade fundamental no educador para a tomada de decisão frente ao modelo de ensino que embasará sua prática pedagógica. Para tal, é necessário, ainda, refletir criticamente acerca do processo de ensino-aprendizagem e de seus objetivos individuais, enquanto trabalhador, e sociais, enquanto membro de uma sociedade ávida por transformações, em específico no setor saúde.

Referências

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