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Perfil socioeconômico e funcional do idoso hospitalizado

Socioeconomic and functional profile of elders hospitalized
  • Valquíria Carvalho Silva
  • Thaisa Araújo de Souza
  • Fátima Helena do Espírito Santo
  • Thayane Dias dos Santos
  • Carla Lube de Pinho Chibante
  • Willian de Andrade Pereira de Brito

Declaração da ausência de conflitos de interesse: Os autores declaram não haver conflitos de interesse nem fontes de financiamento.

RESUMO

Objetivo: Objetivou-se descrever o perfil socioeconômico, os fatores determinantes de saúde e o perfil funcional do idoso hospitalizado e discutir as perspectivas da atuação do enfermeiro frente ao perfil funcional do idoso hospitalizado. Estudo descritivo de abordagem quantitativa, realizado com 30 idosos internados nas enfermarias de clínica médica de um Hospital Universitário, no Rio de Janeiro, Brasil, no período de outubro a dezembro de 2014. A coleta de dados foi realizada mediante análise dos prontuários dos idosos e aplicação de três escalas geriátricas. Verificou-se que a média etária foi de 71,13 anos, sendo a maioria dos idosos do sexo masculino, 22 (73,33%), e com nível fundamental incompleto. Houve prevalência de doenças do aparelho circulatório, 13 (43,33%), e tempo médio de internação de 9,46 dias. Quanto ao perfil funcional, a maioria, 25 (83,33%), era independente para a realização das Atividades Básicas de Vida Diária e Atividades Instrumentais de Vida Diária, e 22 (73,33) idosos não apresentaram indícios de depressão. Cabe ao enfermeiro realizar o planejamento das ações de saúde, avaliando a capacidade funcional do idoso e implementando medidas que favoreçam a prevenção do comprometimento funcional durante a hospitalização, contribuindo, assim, para preservação da autonomia e independência dos idosos.

Palavras-chave: Enfermagem Geriátrica; Idoso; Hospitalização; Avaliação Geriátrica.


SUMMARY - Objective: It was intended to describe the socio-economic profile, the determinant health factors and the functional profile of the elders hospitalized and to discuss the perspectives of the nurse procedure according to the functional profile of the elders hospitalized. A descriptive, quantitative-approach study made with 30 elders hospitalized in the Medical Clinic infirmaries of a University Hospital in Rio de Janeiro, Brazil, from October through December 2014. Data collection was performed through analysis of the elders` medical records and the use of three geriatric tables. It was observed that the age average was of 71.13 years, and most of elders was male, 22 (73.33%), and with incomplete basic education. There was prevalence of diseases in the circulatory system, 13 (43.33%) and average hospitalization period was of 9.46 days. As to the functional profile, the majority, 25 (73.33%) was independent for execution of basic activities of daily life and instrumental activities of daily life and 22 (73.33%) of the elders did not present aspects of depression. It is up to the nurse to make the planning for the health actions, assessing the functional capacity of the elders and implementing measures that favor the prevention of functional capacity during hospitalization, contributing, this way, for the preservation of autonomy and independence of elders. for execution of basic activities of daily life and instrumental activities of daily life and 22 (73.33%) of the elders did not present aspects of depression. It is up to the nurse to make the planning for the health actions, assessing the functional capacity of the elders and implementing measures that favor the prevention of functional capacity during hospitalization, contributing, this way, for the preservation of autonomy and independence of elders.

Keywords: Geriatric Nursing; Aged; Hospitalization; Geriatric Assessment.

INTRODUÇÃO

O crescimento da população idosa representa um dos fenômenos mais desafiadores da sociedade atual, que ocorre de forma diferenciada em países desenvolvidos e nos países em desenvolvimento, como no caso do Brasil, resultando, principalmente, em implicações sociais e para saúde.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que o número de idosos no Brasil é um dos maiores do mundo, com taxas de crescimento de mais de 4% ao ano no período de 2012 a 2022. Espera-se, para os próximos 10 anos, um incremento médio de mais de 1 milhão de idosos anualmente1.

O envelhecimento acelerado da população brasileira acarreta importantes modificações, tanto na estrutura etária populacional quanto no perfil epidemiológico, configurando um quadro em que as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) passam a ser predominantes, o que acarreta em aumento da demanda e o consumo dos idosos pelos serviços de saúde, e, consequentemente, em aumento dos gastos do sistema de saúde. Nesse contexto, os idosos são hospitalizados com maior frequência, quando comparados aos mais jovens e apresentam tempo médio de permanência hospitalar maior, além de possuírem um índice de (re) internações mais elevado2.

No entanto, o manejo adequado dessas condições crônicas frequentemente é negligenciado no cenário hospitalar, uma vez que a assistência hospitalar ainda é centrada na doença e o cliente idoso recebe um cuidado generalizado, com base em parâmetros da fase adulta, não sendo levadas em consideração as singularidades que envolvem o processo de envelhecimento. Assim, a hospitalização, apesar de gerar altos custos, pode trazer poucos benefícios para a saúde do idoso, com a possibilidade do idoso incorrer em perdas na capacidade funcional que não existiam antes da admissão hospitalar, comprometendo a autonomia e independência dessa clientela3.

Entende-se por capacidade funcional, o potencial que o idoso tem para realizar as atividades básicas de vida diária e as atividades instrumentais de vida diária, a fim de manter sua independência no dia a dia, visando à sua qualidade de vida. O desempenho das atividades de vida diária, mediante o uso de escalas geriátricas, é considerado um parâmetro aceito e legítimo para firmar a avaliação da capacidade funcional, sendo utilizado pelos profissionais da área de saúde para avaliar graus de dependência de seus clientes4.

O comprometimento da capacidade funcional em idosos hospitalizados pode ser causado por inúmeros fatores, desde a idade avançada, a própria doença, aos procedimentos médicocirúrgicos até o repouso no leito, resultando na diminuição da sua mobilidade, risco de infecções hospitalares, uso de vários medicamentos, desnutrição e risco de quedas. Portanto, conhecer os fatores relacionados ao declínio funcional de idosos hospitalizados é fundamental, pois norteia a prevenção e representa um parâmetro relevante para avaliação da eficácia dos tratamentos utilizados5.

Nessa perspectiva, verifica-se a importância do enfermeiro que realiza os cuidados gerontológicos e o planejamento das ações de saúde, priorizar a avaliação da capacidade funcional dos idosos durante a hospitalização, a partir da utilização de escalas geriátricas, o que permitirá um olhar mais acurado em relação à gravidade das doenças, bem como a presença e influência de outras patologias, possibilitando o desenvolvimento de cuidados centrados nas necessidades da clientela idosa.

A partir dessas considerações, o presente estudo teve como objeto: o perfil socioeconômico, os fatores determinantes de saúde e o perfil funcional do idoso hospitalizado e como questões norteadoras: qual o perfil socioeconômico, os determinantes de saúde e o perfil funcional dos idosos hospitalizados? E qual a perspectiva de atuação do enfermeiro frente ao perfil de idosos hospitalizados?

Foram objetivos do estudo: descrever o perfil socioeconômico, os fatores determinantes de saúde e o perfil funcional do idoso hospitalizado e discutir as perspectivas da atuação do enfermeiro frente ao perfil funcional do idoso hospitalizado.

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa de campo, do tipo descritiva, com abordagem quantitativa, desenvolvida nas enfermarias de clínica médica, masculina e feminina, de um Hospital Universitário, localizado no Estado do Rio de Janeiro, Brasil, no período de outubro a dezembro de 2014.

Participaram do estudo 30 idosos, a partir dos seguintes critérios de inclusão: idosos com 60 anos ou mais, de ambos os sexos, internados nas enfermarias de clínica médica. Os critérios de exclusão foram: idosos em situação de alta e/ou transferidos no período de coleta de dados. A inclusão de indivíduos a partir de 60 anos se dá pelo fato da pesquisa ter sido desenvolvida no Brasil, que determina essa faixa etária como marco do início da velhice.

A coleta de dados ocorreu mediante aplicação da Escala de Depressão Geriátrica (EDG), Escala de Katz, Escala de Lawton e Brody e análise dos prontuários dos idosos, para obtenção dos dados do perfil socioeconômico e de saúde.

A Escala de Depressão Geriátrica (EDG) é um dos instrumentos mais utilizados na detecção de depressão em idosos e, nessa pesquisa, utilizou-se a versão brasileira validada

da EDG com 15 questões. A pontuação varia de 0 a 15 e definiu-se como ponto de corte 5, onde ≥ 5 representa indícios de depressão.

A Escala de Katz, validada em 1963, é um instrumento de medida das Atividades Básicas de Vida Diária (ABVDs) e avalia a independência do indivíduo ao banhar-se, vestir-se, ir ao banheiro, transferir-se da cama para a cadeira e vice-versa, ser continente e alimentar-se. Os escores variam de 0 a 6 e o ponto de corte é igual a 3, onde o idoso é dependente em 3 atividades e independente em 3 atividades6.

A Escala de Lawton, validada em 1969, é uma ferramenta de medida das Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVDs). Os escores variam de 7 pontos a 21 pontos e, quanto maior o escore, melhor o desempenho nas funções. São avaliadas: uso do telefone, viagens, compras, preparo de refeições, trabalho doméstico, uso de medicação e manejo do dinheiro7.

Ao final da coleta de dados, os mesmos foram dispostos em planilhas do programa Microsoft Office Excel (2010) e analisados por técnica estatística descritiva simples, sendo os achados apresentados em tabelas com distribuição de frequências absolutas e relativas.

Este estudo é parte do projeto de pesquisa “Hospitalização do idoso: perspectivas de intervenção do enfermeiro no processo de cuidar” aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense, sob Parecer nº 996.459, conforme preconizado pela Resolução 466\12 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), sendo os participantes orientados quanto aos objetivos do estudo e a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, informando-os sobre a participação voluntária, a retirada a qualquer momento do estudo, além do uso de nomes fictícios como forma de preservar a identidade dos participantes.

RESULTADOS

Perfil Socioeconômico

Participaram do estudo 30 idosos, cuja média etária foi de 71,13 anos, sendo a idade mínima de 60 anos e a máxima de 86 anos. A média de idade para o sexo masculino foi de 71,09 (idade mínima de 60 anos e máxima de 86 anos) e, para o sexo feminino, foi de 78,75 (idade mínima de 66 anos e máxima de 83 anos). Em relação ao estado civil, a maioria, 19 (63,33%) idosos, eram casados. Quanto à escolaridade, 16 (53,33%) idosos tinham ensino fundamental incompleto. Quanto à renda, 18 (60%) idosos recebiam mais de um salário e 24 (80%) idosos moravam com familiares, conforme demonstrado na Tabela 1.

Tabela 1 - Distribuição dos idosos hospitalizados nas enfermarias de clínica médica conforme perfil socioeconômico. Niterói, RJ, Brasil, 2014.


Fatores Determinantes de Saúde

Os fatores determinantes de saúde foram divididos nas seguintes variáveis: diagnósticos principais, tempo de internação, comorbidades e hábitos nocivos, conforme a Tabela 2.

Tabela 2 - Distribuição dos idosos hospitalizados nas enfermarias de clínica médica conforme fatores determinantes de saúde. Niterói, RJ, Brasil, 2014


O grupo de agravos com maior frequência entre os idosos hospitalizados foi o das doenças do aparelho circulatório, com 13 (43,33%) idosos. O tempo de internação variou de 1 dia a 39 dias, com média de 9,46 dias. A maioria 24 (80%) dos idosos apresentava comorbidades. Constatou-se que, dentre os 30 idosos, 20 (66,66%) eram tabagistas, dos quais 18 (90%) do sexo masculino e 2 (10%) do sexo feminino. Dos 15 idosos (50%) que declararam fazer uso de bebida alcoólica, 2 (13,33%) eram do sexo feminino e 13 (86,66%) do sexo masculino. Dentre esses idosos, 5 referiram ser tabagistas e também fazer uso de bebidas alcoólicas.

Perfil Funcional

O perfil funcional dos idosos pesquisados é descrito na Tabela 3.

Tabela 3 - Distribuição dos idosos hospitalizados nas enfermarias de clínica médica, conforme perfil funcional. Niterói, RJ, Brasil, 2014


Quanto ao grau de dependência para realização das atividades básicas de vida diária (ABVDs), 25 idosos (83,33%), dos quais 6 (24%) mulheres e 19 (76%) homens, apresentaram-se independentes em todas as seis funções, ganhando pontuação 0; 1 idoso do sexo masculino (3,33%) se apresentou independente em cinco funções e dependente em uma função, ganhando pontuação 1; 3 idosos (10%), dos quais 1 (3,33) homem e 2 (6,66%) mulheres, apresentaram-se independentes em quatro funções e dependentes em duas, ganhando pontuação 2; e 1 (3,33%) idoso do sexo masculino se apresentou independente em três funções e dependente em três, ganhando pontuação 3. Portanto, dos 30 participantes, 5 idosos (16,66%), 3 (60%) homens e 2 (40%) mulheres, apresentaram algum grau de dependência para as ABVDs.

Quanto ao grau de dependência para realização das atividades instrumentais de vida diária (AIVDs), a pontuação média foi de 18,9 pontos, sendo que 19 (63,33%) idosos, dos quais 4 (21,05%) mulheres e 15 (78,94%) homens, apresentaram-se independentes para a realização dessas atividades; 11 (36,66%), sendo 4 (36,36%) mulheres e 7 (63,63%) homens, apresentaram dependência parcial. A EDG teve uma variação entre 0 e 8 pontos, com pontuação média de 3,06 pontos, abaixo do ponto de corte 5. A maioria dos idosos, 22 (73,33%), teve pontuação abaixo de 5, embora 8 idosos (26,66%), dos quais 2 (25%) mulheres e 6 (75%) homens tenham apresentado indícios de depressão, com pontuação igual ou maior que 5.

DISCUSSÃO

Com relação ao perfil socioeconômico, um estudo realizado com idosos internados na unidade de clínica médica de um hospital geral terciário, constatou que a idade média dos idosos nesse cenário era de 73,8 anos e a faixa etária de maior distribuição foi de 60 a 69 anos, com maior prevalência de idosos do sexo masculino hospitalizados, o que corrobora com os achados deste estudo8.

Quanto a maior frequência de internação de idosos do sexo masculino, esta pode estar relacionada com a prática de atitudes negativas pelos homens, tais como os hábitos de beber e fumar, a falta de exercícios físicos e de uma alimentação saudável e a busca tardia por assistência médica9.

Com relação à escolaridade, um estudo que realizou uma avaliação sociodemográfica de idosos encontrou resultados semelhantes aos desta pesquisa, em que a maioria dos idosos possuía ensino fundamental incompleto10. A baixa escolaridade entre os idosos pode ser consequência de possíveis dificuldades durante a idade escolar, como financeira, de deslocamento, de oferta, entre outras. Indivíduos com maior escolaridade apresentam menores chances de exposição aos fatores de risco para o desenvolvimento de doenças11.

A maioria dos idosos do estudo apresentou renda mensal maior que um salário mínimo, entretanto, em um inquérito realizado com mulheres idosas, a maioria informou renda de apenas um salário-mínimo12. O idoso com baixo rendimento apresenta dificuldade para custear sua saúde, como na compra de medicamentos e no deslocamento até as unidades de saúde. Como consequência, ocorre à degradação da saúde, o agravamento das doenças, levando à deterioração funcional11.

Morar sozinho pode ser uma opção para os idosos que desejam manter a sua independência e autonomia, porém, pode ser muito difícil quando adquire algum comprometimento funcional. Para alguns idosos, a coabitação com familiares pode ser essencial, para ajudar a resolver questões do dia a dia, de origem física ou financeira. Para outros, o convívio pode ser indesejado, mas ser a única opção, em detrimento de uma institucionalização13.

Com relação aos fatores determinantes de saúde, o estudo demonstrou uma prevalência de doenças circulatórias nos idosos hospitalizados. As doenças do aparelho circulatório são as mais frequentes entre os idosos, sendo responsáveis por 29,9% das internações na faixa etária de 70 a 79 anos9.

O tempo de internação corroborou com os resultados encontrados em um estudo cuja duração das internações foi considerada elevada (mediana de oito dias) e justificada considerando que, por se tratar de um hospital universitário, possa existir uma tendência para maiores dias de hospitalização, tendo em conta avaliações mais cuidadosas e procedimentos mais demorados14.

Em outro estudo, a presença de comorbidades demonstrou-se elevada, onde 98,3% dos idosos apresentavam morbidades, sendo que, destes, 32,9% (maioria dos que apresentaram múltiplas patologias) tinham predomínio de 4 a 7 comorbidades. As comorbidades, quando associadas às alterações causadas pelo processo de envelhecimento, podem intensificar o impacto das perdas sensoriais do idoso, interferindo de modo negativo na qualidade de vida15.

Através da consulta de enfermagem, podem ser identificadas dificuldades advindas da presença de comorbidades, cabendo ao enfermeiro elaborar uma assistência sistematizada aos idosos. Torna-se imprescindível que os enfermeiros implementem práticas que possam auxiliar os idosos, frente às limitações que podem ser causadas pela existência de múltiplas patologias.

Os dados evidenciam que os homens são mais expostos a hábitos nocivos como tabagismo e alcoolismo, sugerindo menor cuidado com sua saúde, o que pode justificar maior índice de hospitalização. A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem – PNAISH, lançada em 2008, refere que os homens usam cigarros com mais frequência do que as mulheres, tornando-os mais vulneráveis às doenças cardiovasculares, câncer, doenças pulmonares obstrutivas crônicas, entre outras. Quanto ao uso de bebidas alcoólicas, é necessário avaliação dos determinantes sociais que os influenciam a problemas com o álcool, o que é imprescindível para a elaboração de ações efetivas de prevenção e promoção da saúde deste segmento16.

Um estudo sobre o perfil da capacidade funcional de idosos hospitalizados, demonstrou resultados contrários aos desta pesquisa, em que a maioria dos sujeitos era semi-dependente ou dependente para as atividades de vida diária, tanto para as básicas quanto para as instrumentais17.

Embora a maioria dos idosos tenha sido identificada neste estudo como independente para realização das ABVDs e AIVDs, sabe-se que o processo de envelhecimento eleva o risco de aparecimento das doenças crônicas não transmissíveis e que estas podem comprometer a funcionalidade, tornandoos dependentes. A manutenção e preservação da capacidade funcional dos idosos para realizar as atividades básicas da vida diária são pontos fundamentais para prolongar a independência pelo maior tempo possível18.

Em uma pesquisa desenvolvida em enfermarias de clínica médica, a prevalência de indivíduos com indícios de depressão pela EDG foi considerada baixa (3,37 pontos), corroborando com o presente estudo17. Entretanto, os idosos que possuem dependência parcial ou total apresentam mais suscetibilidade de desenvolver sintomas depressivos que os idosos independentes, comprovando a relação entre a depressão e a funcionalidade dos idosos19.

Assim, uma avaliação de enfermagem que identifique indícios depressivos e seus fatores causadores pode servir de suporte para implementação de cuidados que evitem o desencadeamento dos sintomas e até mesmo a progressão dos já existentes, prevenindo possíveis comprometimentos funcionais. Dentre as ações que podem auxiliar na prevenção desses comprometimentos destacam-se a promoção e estímulo de uma vida associativa e saudável, com a realização de atividades de recreação, atividades físicas e atividades culturais para os idosos19.

Embora consentido, o ambiente hospitalar, na maioria das vezes, não permite a realização dessas atividades, considerando a falta de profissionais capacitados e com olhar sensível para essa demanda, a falta de espaço e também a ausência de enfermarias geriátricas, fazendo com que o idoso receba a mesma assistência que os adultos, em detrimento das especificidades da sua faixa etária. Mesmo na ausência de uma enfermaria geriátrica, o idoso deve ser assistido de forma individual, levando em conta aspectos específicos do envelhecimento, de modo que sejam preservadas e estimuladas suas potencialidades funcionais. Para tal, o enfermeiro deve ser conhecedor dos aspectos envolvidos no processo de envelhecimento.

Além disso, a maior dependência do idoso para realizar as atividades de vida diária tem acarretado na perda da capacidade de decidir sobre a própria vida. Levando em consideração que a perda da independência do idoso não quer dizer que o mesmo perdeu também sua autonomia, o enfermeiro deve dialogar com o idoso e com seus familiares quanto à capacidade de decisão do mesmo, salvo nos casos, cuidadosamente analisados, em que exista comprometimento cognitivo15.

A hospitalização pode ser geradora de vulnerabilidade no idoso, com repercussões no quadro emocional e funcional, cabendo ao enfermeiro estabelecer planos individuais de encorajamento, com foco para a capacidade de autocuidado, prevenindo a dependência e empoderando-os para o autocuidado.

Nessa perspectiva, é importante ressaltar que a avaliação funcional do idoso pode e deve ser realizada no momento da sua admissão, a fim de detectar as capacidades e limitações que serão trabalhadas durante o período de hospitalização. Uma vez detectadas suas capacidades, o idoso deverá continuar fazendo por ele próprio o que já era capaz de fazer quando estava em seu domicílio e, para as suas limitações, aquilo que não era capaz de fazer sem ajuda de outro, deverá ser dado suporte e estímulo à realização, para que possam ser desempenhadas sem ajuda. Trata-se, portanto, de um processo de manutenção e recuperação funcional, visando reduzir a dependência ou impedir sua progressão, ou mesmo recuperar a independência do idoso.

Além da avaliação funcional, o enfermeiro pode implementar estratégias como o planejamento de alta, para que o processo de hospitalização se torne uma experiência de aprendizado, permitindo que a alta hospitalar aconteça com resolutividade, não apenas para a solução dos problemas de saúde agudo do paciente, mas no fornecimento de suporte mediante orientações sobre cuidado e autocuidado. Entretanto, a família do paciente deve ser alcançada, para que esta tenha entendimento e compreensão de como lidar com o tratamento e cuidado para com as condições crônicas, principalmente os comprometimentos funcionais, visando à qualidade de vida e um retorno para o domicílio mais preparado para enfrentar as dificuldades do cotidiano20.

Ainda assim, no ambiente domiciliar, podem surgir eventuais dúvidas, tanto para o idoso quanto para os seus familiares, que podem prejudicar seu autocuidado, comprometendo também sua qualidade de vida. Diante disso, o enfermeiro também pode valer-se de uma estratégia de acompanhamento e monitoramento pós-alta, a fim de colher informações sobre a condição de saúde do idoso e sanar determinadas dúvidas, para que esse idoso permaneça na melhor condição funcional possível em seu domicílio, evitando readmissões hospitalares.

CONCLUSÕES

A realização desse estudo contribuiu para a ampliação dos conhecimentos na área de gerontologia e enfermagem, o que possibilita o despertar dos gestores e enfermeiros para elaboração de novas discussões e pesquisas acerca da temática, visando uma assistência de enfermagem de qualidade voltada para as reais necessidades da pessoa idosa.

A limitação desse estudo refere-se ao não acompanhamento da evolução da capacidade funcional ao longo da hospitalização dos idosos, o que aponta possibilidades de outros estudos que abordem essa questão por um período mais longo, mapeando a relação entre o tempo de hospitalização e suas possíveis repercussões na capacidade funcional dos idosos. Quanto à dificuldade encontrada durante o período de coleta de dados, destaca-se: ausência de determinadas informações nos prontuários e\ou informações incompletas, sendo necessário recorrer ao paciente para completá-las.

Através dos resultados deste estudo, evidenciam-se a importância da compreensão dos enfermeiros quanto às singularidades dos idosos e as suas vulnerabilidades no ambiente hospitalar, avaliando a capacidade funcional dessa clientela durante a admissão, tendo em vista que o processo de envelhecimento associado à presença de doenças crônicas não transmissíveis gera a redução da capacidade funcional que pode ser totalmente comprometida durante a hospitalização, sendo necessário redirecionar as práticas assistenciais de enfermagem para a manutenção da funcionalidade dos idosos, contribuindo para sua melhor qualidade de vida.

Nessa perspectiva, sugere-se que a instituição estruture um ambiente de cuidado específico para esta clientela, como uma enfermaria geriátrica, de modo que os cuidados sejam realizados por profissionais capacitados e qualificados para trabalhar com estes indivíduos. Além disso, destaca-se a necessidade de implementação de programas de educação permanente da equipe de enfermagem gidvisando seu preparo para saber identificar, avaliar e promover uma assistência sistematizada, que propicie ao idoso uma hospitalização segura e efetiva nos níveis de prevenção, recuperação e manutenção da saúde, mediante o acesso ao conhecimento e desenvolvimento de competências para avaliar e assistir a pessoa idosa, considerando as especificidades e demandas do processo de envelhecimento.

Outrossim, recomenda-se um planejamento de alta, para que o idoso retorne à sua casa na melhor condição funcional possível, principalmente aqueles que moram sozinhos. Para os que coabitam com a família, a mesma deve ser orientada no que se refere às particularidades do envelhecimento, mediante plano de orientação para o cuidado com o idoso e estímulo funcional para com o mesmo. A realização de investigação, acompanhamento e monitoramento do idoso após a alta hospitalar também é de grande valor, oferecendo suporte para que o mesmo tenha entendimento acerca de seu estado de saúde, sanando possíveis dúvidas e orientando quanto ao autocuidado, visando a não instalação de complicações que possam gerar novas hospitalizações.

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