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O USO DA MÚSICA NA PARTURIÇÃO: REVISÃO INTEGRATIVA

USE OF MUSIC DURING LABOR: INTEGRATIVE REVIEW
  • Júnia Aparecida Laia da Mata Fujita
  • Priscila de Lima Nascimento
  • Antonieta Keiko Kakuda Shimo

RESUMO

Objetivo: Realizar uma revisão integrativa da literatura, identificando as recomendações baseadas em evidências para o uso da música/musicoterapia no processo de parturição. Método: revisão integrativa da literatura, realizada de abril a maio de 2014, nas bases eletrônicas de dados MEDLINE, LILACS e COCHRANE LIBRARY. Selecionou-se os Descritores em Ciências da Saúde: Musicoterapia; Trabalho de parto; Parto; Enfermagem Obstétrica. Incluiu-se: artigos originais e revisões sistemáticas, publicados em periódicos nacionais e internacionais, que contemplavam a temática da pesquisa, publicados no período de 1986 a 2013. Resultados: Foram selecionados 09 estudos. Após a análise, realizou-se a sinopse dos principais resultados encontrados, em categorias: I- Uso da Música/Musicoterapia na Obstetrícia; II- Efeitos da Música/Musicoterapia na Parturição; III- O Manejo da Música na Parturição. Conclusões: Foram constatadas na literatura científica evidências do uso da música na parturição como método não farmacológico para alívio da dor, do estresse, da ansiedade e do medo, revelando-se como estratégia efetiva. Verificou-se que existem poucos estudos disponíveis sobre o tema nas bases de dados investigadas, demonstrando a necessidade de estabelecer mais evidências científicas que apoiem seu uso na prática obstétrica.

Descritores: Musicoterapia; Trabalho de Parto; Parto; Enfermagem Obstétrica; Parto Humanizado.


SUMMARY - Objective: realize a integrated revision of the literature, identifying the recomendations based on evidences to the use of music/musictherapy in the process of parturition. Method: integrated revision of the literature, realized between april and may of 2014 at the online data bases MEDLINE, LILACS and COCHRANE LIBRARY. There was selected the describers in health sciences: Music Therapy; Labor, Obstetric; Parturition; Obstetric Nursing. Adding: original articles, sistematics revisions, published in national and international periodics, that was based on the search tematics, publish between 1986 and 2013. Results: There was selected 09 studies. After the analysis, has been made a sinopsis of the main results found, in categories, as follows: I Use of Music/Musictherapy; II Effects of the Music/Music Therapy at the Parturition; III The handle of the Music at Parturition. Conclusions: There was constated in the cientific literature evidences of the use of music at the parturition like a method non farmacologic to the relief of pain, stress, anxiety, and fear, revealing itself as a efective strategy. Has been verified that there is just few studies available about the themes at the consulted data bases, showing the necessity of stablish more cientific evidences that suports their use at the obstetric pratice.

Descriptores: Music Therapy; Labor, Obstetric; Parturition; Obstetric Nursing; Humanizing Delivery.

INTRODUÇÃO

Segundo dicionário específico, a música é a arte de combinar os sons de maneira a agradar ao ouvido para, colocando em ação a inteligência, falar aos sentimentos e comover a alma. Como ciência, a música contempla três elementos: a melodia, o ritmo e a harmonia(1). Considerada um recurso tecnológico, a música pode ser utilizada por enfermeiros a fim de proporcionar conforto, tranquilidade, prazer e segurança ao cliente. Sendo assim, pode-se usar o termo música terapêutica para tal fim, diferenciando este de “musicoterapia”, que se trata de uma atividade profissional que exige formação específica(2).

A musicoterapia é o ramo da ciência que estuda e investiga o complexo som-homem, onde o som pode ser musical ou não, bem como os métodos terapêuticos e dos elementos diagnósticos que lhe são inerentes. Do ponto de vista terapêutico, a musicoterapia é uma disciplina paramédica que usa o som, a música e o movimento para produzir efeitos regressivos e para abrir canais de comunicação que permitirão iniciar um processo de treinamento e recuperação do indivíduo tratado(3).

Já a música terapêutica tem sido utilizada como uma estratégia de cuidado de enfermagem, e vem sendo pesquisada com finalidade de sensibilizar os enfermeiros à sua aplicação, sendo considerada uma estratégia de humanização simples, inovadora e criativa(2).

O uso terapêutico da música é considerado na atualidade uma ferramenta complementar na promoção da saúde. Tem acumulado evidências científicas sobre sua efetividade no manejo da dor, da ansiedade e do estresse emocional, entre outras condições(4).

A parturição é um evento fisiológico e social envolvido pelo fenômeno da dor e por todo um conjunto de percepções, sensações, sentimentos, temores e emoções. Existem diversos mitos associados ao parto natural, em especial os relacionados à dor e ao medo do que está por vir, o que favorece o aumento da ansiedade e do estresse em parturientes(5).

A insuportabilidade imaginada da dor do parto, ainda não sentida no caso das nulíparas; a sua memória, já experimentada em muitos casos de multíparas e em ambos os casos, o seu temor podem imprimir ao momento da parturição algo tão assustador que leva muitas mulheres a optarem por cesárea sem que essa tenha uma clara indicação do ponto de vista obstétrico(6).

Diversos fatores psicológicos e ambientais podem afetar a experiência da parturiente, a saber: a ansiedade; pensamentos negativistas; o medo da dor; a comunicação verbal e não-verbal entre os atores envolvidos no processo; a filosofia que orienta os procedimentos e as práticas dos provedores do cuidado; a qualidade do suporte oferecido e percebido pelas mulheres; o grau de estranhamento com o ambiente e com seus equipamentos, ruídos, iluminação, temperatura, dimensões do espaço e sua adequação para movimentação, deambulação, entre outros aspectos(7-10). Desse modo, a ambiência e as práticas obstétricas repercutem significativamente na experiência de parir, podendo gerar efeitos positivos ou negativos.

Dentre as estratégias aplicadas na atualidade para o alívio da ansiedade e da dor na parturição, destaca-se a música/musicoterapia, que segundo pesquisas científicas, reduz os níveis de catecolaminas, diminuindo a frequência cardíaca e a pressão arterial, estimula a hipófise a liberar endorfinas para diminuição da dor, gera efeitos afetivos (melhora o humor, aumenta o relaxamento e reduz a ansiedade) e cognitivos (maior controle e distração)(4,5,11,12).

O interesse por investigar a música e seus efeitos na assistência à parturição emergiu na prática profissional das pesquisadoras, que a têm aplicado na atenção ao parto e ao nascimento. Mesmo que a implementação desta estratégia não tenha sido realizada de forma sistemática, observaram-se diversos benefícios na sua utilização.

O presente estudo teve por objetivo: realizar uma revisão integrativa da literatura, identificando as recomendações baseadas em evidências para o uso da música/musicoterapia no processo de parturição.

MÉTODOS

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, que consiste em um método que possibilita a análise do conhecimento já construído em pesquisas anteriores sobre um determinado tema e viabiliza a geração de novos conhecimentos, pautados nos resultados apresentados por estes estudos(13).

A sua elaboração foi norteada por 06 etapas: definição do tema e seleção da questão de pesquisa (existem evidências científicas que apoiam o uso da música e/ou musicoterapia no processo de parturição?); estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão; identificação dos estudos pré-selecionados e selecionados; categorização dos estudos selecionados; análise e interpretação dos resultados e apresentação da revisão/síntese do conhecimento(13).

A busca dos dados foi norteada por um protocolo para revisão integrativa de literatura, constituído pelos itens: recursos humanos, participação dos pesquisadores, validação externa do protocolo, recursos materiais, pergunta da pesquisa, critérios de inclusão e exclusão, estratégias de busca, avaliação crítica dos estudos, síntese e conclusão.

Foram adotadas como fonte para a pesquisa as bases eletrônicas de dados: MEDLINE, LILACS e COCHRANE LIBRARY. Os critérios de inclusão foram: artigos originais e revisões sistemáticas, publicados em periódicos nacionais e internacionais, em português, espanhol e inglês, que contemplassem a temática desta pesquisa. Não houve recorte histórico, selecionaram-se todos os artigos encontrados nas bases de dados investigadas que atenderam aos critérios de inclusão.

Foram excluídos: editoriais, cartas, artigos de opinião, comentários, resumos de anais, publicações duplicadas, boletins epidemiológicos, relatórios de gestão, livros, manuscritos com restrição de acesso e estudos que não contemplavam o escopo do protocolo da pesquisa. A coleta dos dados e a revisão integrativa da literatura ocorreram de abril a maio de 2014. Para o levantamento das pesquisas nas bases de dados, foram selecionados os seguintes descritores: Musicoterapia; Trabalho de Parto; Parto; Enfermagem Obstétrica, todos incluídos nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e suas respectivas traduções padronizadas no Medical Subject Heading (MESH): Music Therapy; Labor, Obstetric; Parturition; Obstetric Nursing.

Realizou-se cruzamentos por meio do operador booleano AND, entre os descritores: musicoterapia AND “trabalho de parto”; musicoterapia AND parto; musicoterapia AND “enfermagem obstétrica”. A seguir são apresentados os resultados encontrados.

RESULTADOS

Na figura 1 são apresentados os resultados obtidos a partir da coleta desenvolvida nas bases de dados.

Figura 1 – Fluxograma do processo de seleção dos estudos. Curitiba, PR. 2014.
Figura 1 – Fluxograma do processo de seleção dos estudos. Curitiba, PR. 2014.

Na busca inicial para a realização desta revisão integrativa, foram encontradas 91 publicações nas bases de dados MEDLINE, LILACS e COCHRANE LIBRARY. Na tabela 1 constam os resultados obtidos a partir do cruzamento dos descritores da pesquisa.

Tabela 1 – Publicações encontradas após o cruzamento dos descritores do estudo, por meio do operador booleano AND. Curitiba, PR. 2014.

Descritores

MEDLINE

LILACS

COCHRANE LIBRARY

Total

musicoterapia AND “trabalho de parto”

30

02

09

41

musicoterapia AND parto

38

03

04

45

musicoterapia AND “enfermagem obstétrica”

03

01

01

05

Total

71

06

14

91


A seleção das publicações foi realizada simultaneamente pelas pesquisadoras, a priori, foram lidos todos os títulos das pesquisas. Naquelas em que os títulos tinham alguma palavra que remetesse ao objeto deste estudo, os resumos foram analisados. Entre elas, 82 foram excluídas considerando os critérios de inclusão estabelecidos (Tabela 2).

Tabela 2 – Publicações excluídas conforme os critérios de inclusão estabelecidos. Curitiba, PR. 2014.

 

Critérios

MEDLINE

LILACS

COCHRANE LIBRARY

Total

 

Cruzamento:
musicoterapia AND “trabalho de parto”

Estudos duplicados

03

01

07

11

Não comtempla a temática do estudo

09

01

01

11

*Natureza do estudo

06

00

00

06

Restrição de acesso

05

00

00

05

Número parcial

23

02

08

33

 

Cruzamento:
musicoterapia AND parto

Estudos duplicados

23

02

15

40

Não comtempla a temática do estudo

04

00

00

04

*Natureza do estudo

00

00

00

00

Restrição de acesso

00

00

00

00

Número parcial

27

02

15

44

 

Cruzamento:
Musicoterapia AND “enfermagem obstétrica”

Estudos duplicados

03

00

01

04

Não comtempla a temática do estudo

00

01

00

01

*Natureza do estudo

00

00

00

00

Restrição de acesso

00

00

00

00

Número parcial

03

01

01

05

Total de manuscritos excluídos

53

05

24

82

*Natureza do estudo: inclusos apenas artigos originais e revisões sistemáticas, estudos de outra natureza foram excluídos.

Selecionou-se 09 estudos, todos foram submetidos à leitura na íntegra e constatou-se que respondiam à questão norteadora deste trabalho, estando disponíveis nas seguintes bases de dados: MEDLINE (07), LILACS (02).

No que se refere ao idioma dos artigos, o inglês predominou (07), seguido do português (02). Destes, três (03) eram qualitativos, quatro (04) quantitativos, um (01) quanti-qualitativo e um (01) era estudo teórico (Tabela 3).

Tabela 3 – Caracterização das publicações levantadas sobre a temática do estudo e que respondiam à questão norteadora da pesquisa. Curitiba, PR. 2014.

Título

Autor
(es)

Natureza

Idioma

Periódico

Método

Ano

Base de Dados

01

The effect of music as a conditioning aid
in prepared childbirth education.

¹Durham L, ²Collins M.

Original

Inglês

J Obstet Gynecol Neonatal Nurs.

QT

1986

Medline

02

Bedside musical care: applications in pregnancy, childbirth, and neonatal care.

¹Olson SL.

Revisão

Inglês

J Obstet Gynecol Neonatal Nurs.

QL

1998

Medline

03

Using music during childbirth.

¹Browning CA.

Original

Inglês

Birth

QL

2000

Medline

04

Alternative therapies for the management of pain in labor and delivery.

¹Gentz B.

Teórico

Inglês

Clinical Obstetrics and Gynecology

---

2001

Medline

05

Music reduces sensation and distress of labor pain.

¹Phumdoung S, ²Good M.

Original

Inglês

Pain Management Nursing

QT

2003

Medline

06

Effects of music therapy on labour pain and anxiety in Taiwanese
first-time mothers.

¹Liu YH, ²Chang MY, ³Chen CH.

Original

Inglês

Journal of Clinical Nursing

QT

2009

Medline

07

Efeito da música no trabalho de parto e no recém-nascido.

¹Tabarro, CS, ²Campos LB, ³Galli NO, 4Novo NF,
5Pereira VM.

Original

Português

Rev Esc Enferm USP

QL

2010

Lilacs

08

As práticas integrativas e complementares na atenção à saúde da mulher: uma estratégia de humanização da assistência no Hospital Sofia Feldman.

¹Borges M R, ²Madeira LM, ³Azevedo, VMGO.

Original

Português

Rev. Min. Enferm.

QT/QL

2011

Lilacs

09

Investigating the effect of music on labor pain and progress in the active stage of first labor

¹Hosseini SE, ²Bagheri M, ³Honarparvaran N.

Original

Inglês

European Review for Medical and Pharmacological Sciences

QT

2013

Medline

*QL – qualitativo; QT – quantitativo.

Após a leitura completa das publicações selecionadas foi possível realizar a sinopse dos principais resultados encontrados, organizados em categorias (Tabela 4) que, de modo geral, demonstram evidências sobre o uso da música/musicoterapia no processo de parturição.

Tabela 4 - Sinopse dos principais resultados encontrados nas publicações selecionadas, que respondiam à questão norteadora deste estudo. Curitiba, 2014.

Agrupamento dos Resultados

Publicações

Referências

Categoria I: Uso da Música/Musicoterapia na Obstetrícia

03

4, 14, 16.

Categoria II: Efeitos da Música/Musicoterapia na Parturição

09

4, 5, 14, 16, 17, 18, 19, 20, 21.

Categoria III: O Manejo da Música na Parturição

03

19, 20, 21.

DISCUSSÃO

Categoria I: O Uso da Música/Musicoterapia na Obstetrícia

O uso da música como terapia integrativa na saúde da mulher durante a gestação, o parto e no cuidado neonatal não é recente. Em 1979 já havia sido relatado por Livingston, que demonstrou seus efeitos, a saber: fomenta e controla os movimentos do corpo das mulheres; proporciona maior relaxamento; maior concentração nos padrões de respiração; cria uma atmosfera mais feliz; causa estimulação sensorial para o recém-nascido; envolve a família como uma unidade; e promove o aumento de peso infantil e diminuição da agitação(14,15).

Em Pesquisa científica que objetivou investigar os efeitos da música associada à educação de casais para o parto e suas repercussões no comportamento destes no trabalho de parto verificou-se que a música possui importância suficiente para justificar a sua aplicação como um componente fundamental na educação e preparo para o trabalho de parto e parto. A música melhora a experiência do nascimento e promove relações mais próximas(16).

Um pesquisador estudou a eficácia da música na diminuição da resposta à dor durante o trabalho de parto. A música foi usada para orientar a respiração rítmica e ajudar as mulheres a relaxar, reduzindo, assim, o estresse, a ansiedade e a dor. Todas as participantes do estudo relataram menos respostas de dor no trabalho de parto, enquanto a música estava sendo tocada(14).

Reduzir a dor e a ansiedade pode favorecer uma vivência positiva à mulher/casal/família na parturição. A enfermagem pode colaborar para isso, oferecendo apoio emocional e dispensando às parturientes práticas alternativas de alívio da dor.

A música, reconhecida como recurso terapêutico, por ter efeitos conhecidos sobre o corpo e a mente, tem sido utilizada como adjuvante na prática da enfermagem, como uma ferramenta adicional para ajudar os pacientes, principalmente, no tratamento da dor(4). O seu uso na obstetrícia tem se revelado bastante promissor.

Categoria II: Efeitos da Música/Musicoterapia na Parturição

A maioria das pesquisas levantadas constatou efeitos benéficos do uso da música/musicoterapia na parturição(4,5,14,16,17,18,19,20).

Em estudo que objetivou investigar os efeitos da música relaxante e de ritmo lento sobre a reação de dor e ansiedade durante o parto, no qual foram estudadas sessenta primíparas atendidas em dois hospitais do Sul de Taiwan (30 no grupo controle e 30 no experimental), foi concluído que em comparação com o grupo controle, o experimental teve dor significativamente menor. Além disso, foi verificado que a música era eficaz para induzir o relaxamento e reduzir a ansiedade das mulheres do grupo experimental durante a fase latente do trabalho de parto. A pontuação para a percepção da dor e ansiedade foi variável durante a fase ativa, não diferindo significativamente entre os grupos(4). Este estudo fornece a evidência de que a música é útil para a parturição, especialmente na sua fase inicial.

Os autores destacaram que a falta de eficácia do uso das músicas selecionadas na fase ativa do trabalho de parto pode estar relacionada ao tipo de música escolhida (relaxante, com ritmo lento), que possui um sinal sonoro que parece não sincronizar as mulheres com respiração rítmica, curta e rápida, característica desta fase. Além disso, estudos anteriores aplicaram músicas com ritmos diferentes de acordo com o progresso do trabalho de parto, e constataram que as mulheres concentram-se mais em seus corpos e menos no ambiente durante a fase ativa(4). Durante esta fase, as mulheres apresentam respiração mais rápida e precisam de música com ritmo mais rápido(14).

A música alivia a dor e a ansiedade por estimular o prazer, distraindo a concentração e proporcionando uma ponte para a meditação(4,17,18). A mesma tem sido aplicada para o equilíbrio de energias alteradas pelo estresse(19).

No Brasil, uma pesquisa verificou o efeito da música no trabalho de parto e no recém-nascido, quando submetido às mesmas melodias ouvidas por sua mãe na gestação. Nesta, as gestantes foram submetidas à sensibilização musical a partir do quinto mês e, durante o trabalho de parto, a parturiente foi submetida às melodias selecionadas por ela, com interrupções de 30 minutos a cada duas horas(19).

Um fato marcante do trabalho foi que nenhuma das participantes solicitou a interrupção da música, pelo contrário, todas manifestaram claramente o desejo de que a música fosse mantida até o final do parto. Além disso, foram relatados pelas mulheres efeitos como alívio da dor durante as contrações, auxílio na diminuição da tensão e do medo, ambientalização da parturiente no hospital, estímulo à oração e à espiritualidade. Condições que possibilitaram à parturiente experimentar um estado de relaxamento mais eficaz nos intervalos das contrações, levando a uma evolução mais amena e eutócica do trabalho de parto, elevando o limite de tolerância à dor e ao desconforto. Concluiu-se que a música minimizou os desconfortos do trabalho de parto(19).

No que se refere aos bebês que foram submetidos precocemente à música, nos períodos de sensibilização materna, apresentaram reações positivas ao reconhecerem os sons, quer acalmando-se e dormindo, quer mostrando-se atentos às melodias, às vezes até de forma seletiva. Alguns apresentaram melhora das cólicas e do choro decorrente(19).

Uma pesquisa afirma que há maior necessidade de desenvolvimento de estudos sobre os efeitos benéficos da música à parturição, pois não há muitas evidências sobre o assunto, representando um desafio no meio científico(21). Há poucas evidências sobre terapias complementares para o alívio da dor no trabalho de parto e parto, embora o número de pesquisas na área tenha crescido(22).

Ao realizar este estudo constatou-se essa problemática, pois não foram encontrados trabalhos muito recentes nas bases de dados, identificando uma escassez de investigações brasileiras, já que a maioria das pesquisas era internacional. Apesar da restrição de estudos sobre o tema, alguns já comprovaram que a música/musicoterapia tem resposta positiva quando aplicada ao parto e nascimento.

Em um ensaio clínico randomizado que analisou os efeitos da música na sensação de dor e angústia em primíparas tailandesas durante a fase ativa do trabalho de parto, foram encontradas evidências de que os enfermeiros podem usar música suave e instrumental para ajudar a diminuir tanto a sensação de angústia quanto de dor, nas primeiras três horas da fase ativa do trabalho de parto, pois esta estratégia se mostrou efetiva(18).

Os efeitos da musicoterapia na dor do parto e no progresso da fase ativa de primíparas foram investigados em pesquisa realizada na cidade de Bushehr no Irã, na qual participaram 30 mulheres divididas em dois grupos (um experimental e outro controle). O grupo experimental escutou uma música relaxante por 30 minutos em cada hora, durante o período de duas horas e o grupo controle não foi exposto à música durante este período. Os resultados mostraram que a música diminuiu a sensação de dor no grupo experimental, em comparação com o controle(5).

Estudo indica que a escuta de música aumenta os níveis plasmáticos de ocitocina(23). A ocitocina é um hormônio que afeta diretamente comportamentos como cópula e apego das mães para com seus filhos. Além disso, reduz a dor, estimula o útero durante o parto, facilita o processo de contratilidade da parede uterina e aumenta o nível de secreção de leite durante a amamentação. Sua secreção aumenta em resposta a estímulos sensoriais e táteis(5,24,25,26,27).

Na pesquisa supracitada(23) a música é apontada como um tranquilizante que aumenta o nível de ocitocina diminuindo a sensação dolorosa e a ansiedade.

Um trabalho realizado em Bantford, Ontario, Canadá, no qual foi pesquisada a resposta de primíparas diante do uso da musicoterapia no nascimento de seus filhos corrobora com os resultados já apresentados, revelando esta estratégia como elemento importante no alívio da dor e do estresse na parturição(17).

Categoria III: O Manejo da Música na Parturição

De forma geral, os estudos selecionados evidenciam o uso da música e os efeitos benéficos gerados na parturição(4,5,14,16,17,18,19,21), contudo, há vários requisitos que devem ser atendidos para sua aplicação.

No pré-natal, as gestantes podem ser aconselhadas a escolher suas músicas, conforme sua identidade sonora e preparadas para usufruir da música na parturição. Durante o parto devem ser orientadas sobre a eficácia da música para a analgesia e o relaxamento. A instituição e os profissionais que assistirão à parturiente devem mostrar-se receptivos ao uso da música e possibilitar sua aplicação de forma eficaz(21,22).

A música pode estar diretamente ligada a história pessoal de cada ser humano, ela ajuda a organizar a vida em sequência, fazendo lembrar das vivências. A memória musical/sonora traz à tona sentimentos, lembranças, podendo ser positivos ou negativos. Sendo assim, destacamos o quão é importante realizar uma seleção cuidadosa e individualizada das músicas que serão aplicadas durante a parturição.

Uma pesquisa realizada em Minas Gerais, Brasil, que objetivou caracterizar a população usuária do Núcleo de Terapias Integrativas e Complementares do Hospital Sofia Feldman, e identificar as práticas mais utilizadas no núcleo, bem como conhecer as impressões das usuárias a respeito da sua aplicação, constatou que a aromaterapia e a musicoterapia foram as práticas mais usadas pelas mulheres estudadas. A musicoterapia foi praticada na ambientação com a utilização de músicas cantadas e instrumentais(20).

Nota-se que a música não tem sido utilizada apenas como estratégia não farmacológica para alívio da dor, ansiedade e estresse, mas também como um harmonizador do ambiente, proporcionando tranquilidade e segurança à parturiente.

A escolha de músicas realizada previamente pela gestante, a sensibilização sonora e a aplicação da música na parturição, proporcionam uma sensação de relaxamento mais efetiva no processo(19).

CONCLUSÕES

Foram encontradas na literatura científica evidências do uso da música (seja na modalidade de música terapêutica ou musicoterapia) na parturição, como método não farmacológico para alívio da dor e do estresse, mostrando-se como estratégia efetiva, principalmente na fase latente do trabalho de parto.

De forma geral, os estudos selecionados concluíram pontos positivos relacionados ao uso da música no trabalho de parto e parto, revelando que esta alivia a dor, auxilia no relaxamento, deixa o ambiente mais confortável, estimula a concentração, reduz a ansiedade, o medo e aumenta o vínculo entre a mulher e o profissional de saúde. É uma estratégia de fácil aplicabilidade, de baixo custo e que não possui efeitos colaterais.

Verificou-se que existem poucos estudos disponíveis sobre o tema nas bases de dados investigadas, demonstrando a necessidade de estabelecer mais evidências científicas robustas sobre o assunto que apoiem seu uso na prática obstétrica.

Referências

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