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O brincar da criança hospitalizada na brinquedoteca hospitalar*

The play child hospitalized in hospital playroom
  • Juselda de Lima
  • Ana Llonch Sabates

RESUMO

Os objetivos foram identificar os brinquedos escolhidos pelas crianças na brinquedoteca hospitalar e conhecer os conteúdos expressos durante o brincar. Método. Estudo descritivo, transversal e de campo, com abordagem mista. Os dados qualitativos foram registrados sob a forma de narrativas pela pesquisadora, e submetidos à análise de conteúdo de Bardin. Participaram 60 crianças, de três a 10 anos de idade, hospitalizadas em hospitais da rede pública do município de São Paulo. Resultados. A maioria das crianças era pré-escolar e do sexo feminino. Dos brinquedos escolhidos 19% estavam relacionados a objetos hospitalares e 8% com utensílios de cozinha. Nos conteúdos expressos, durante o brincar, emergiram seis categorias: vivenciando a rotina do cotidiano habitual; necessitando do convívio com proteção dos pais; convivendo com os sintomas da doença; necessitando realizar procedimentos; percebendo os benefícios do tratamento e da hospitalização e convivendo com o sentimento da morte. Conclusão. A brinquedoteca hospitalar mostrou-se um espaço de oportunidades para a criança simbolizar os conteúdos hospitalares e domésticos e entender melhor o que esta acontecendo com ela. As enfermeiras precisam estimular a criança a brincar na brinquedoteca a fim de permitir que ela vivencie o seu cotidiano hospitalar e possa lidar com a doença, exames e tratamentos.

Descritores: Jogos e brinquedo; Enfermagem pediátrica; Criança hospitalizada; Recreação.


SUMMARY - Objectives. The objectives were to identify the toys chosen by the children in the hospital playroom and to perceive the expressed content during play. Method. Descriptive transversal and field study. In this study, 60 children from 3 to 10 years old, hospitalized in public hospitals in São Paulo participated. Results. The majority of the children were female preschoolers. Qualitative data was recorded in the form of narratives by the researcher and submitted to analysis of Bardin content. From the toys chosen, 19% were related to hospital activities and 8% with kitchen utensils. In expressed content during play, six categories emerged: experiencing the usual routine of daily life; needing contact with parent’s protection; living with the symptoms of the disease; having to go thru procedures; realizing the benefits of treatment and hospitalization and living with the feeling of death. Conclusion. The hospital playroom proved to be a window of opportunity for the child to symbolize hospital and domestic content and better understand what is happening. Nurses need to encourage children to play in the playroom to allow them to experience their hospital routine and deal with the disease, tests and treatments.

Keywords: Games and toys; Pediatric nursing; Hospitalized children; Recreation.

INTRODUÇÃO

A infância é um período importante para o desenvolvimento humano onde a atividade lúdica é uma necessidade para que a criança possa explorar e conhecer o mundo à sua volta.

Para Winnicot1 o ato de brincar tem ligação com a imaginação da criança e promove uma proteção, dentro de certos limites, de agravos emocionais advindos de situações adversas, que a criança possa passar no decorrer de sua vida.

Neste sentido, a hospitalização configura-se num evento adverso, inesperado e de crise para a criança 2 durante a qual o brincar continua sendo uma necessidade que precisa ser atendida, uma vez que o desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e social da criança não cessa3 por estar hospitalizada, e a brincadeira pode assegurar o seu equilíbrio emocional e intelectual4.

Assim, o brincar pode ser considerado como terapia, uma vez que se caracteriza como oportunidade de elaboração de experiências concernentes à hospitalização, propiciando a redução da angústia e a reorganização de sentimentos5.

Freud6 refere que “o brincar é o cenário por meio do qual a criança apropria-se dos significantes que a marcaram”. No brincar a criança transforma em ativo o que sofreu passivamente. Nesse aspecto, o brinquedo tem função auto curativa, uma vez que auxilia a criança na elaboração de seus conflitos7, pois é por meio do brincar de faz de conta, que as experiências ruins ou desagradáveis se transformam, permitindo a elaboração de conflitos, favorecendo inclusive, uma catarse elaborativa de imediato8.

Ao brincar simulando situações do cotidiano hospitalar a criança tem a sua compreensão facilitada sobre os aspectos relacionados à sua doença e tratamento, de forma lúdica e prazerosa uma vez que ao lhe ser permitido manipular os equipamentos e objetos hospitalares pode controlar a situação9.

Pesquisas sobre os efeitos do brincar na criança hospitalizada5,10,11, ressaltam que esta atividade facilita a exteriorização de sentimentos, medos, e necessidades além de permitir à criança compreender o significado da doença e hospitalização.

Dessa forma, é possível dizer que brincar é a essência da saúde física, emocional e intelectual uma vez que brincando a criança se reequilibra e recicla suas emoções12.

Neste contexto, o brincar é tão importante, que originou a criação de leis específicas entre elas a Lei 11.104 de 21 de março de 2005, decretada pelo Congresso Nacional que dispõe sobre a obrigatoriedade de instalação de brinquedotecas nas unidades de saúde que ofereçam atendimento à criança em regime de internação13:

Para Carvalho14 a brinquedoteca torna a experiência de hospitalização mais suportável e menos traumatizante para a criança, favorecendo diversão e proporcionando relaxamento, auxiliando-a a se sentir mais segura em um ambiente fora do seu contexto familiar, ajudando-a a diminuir o estresse da separação e os sentimentos de estar longe do seu cotidiano habitual. A brinquedoteca favorece o alívio da tensão, permitindo a expressão de sentimentos, estimulando o seu desenvolvimento global, concorrendo com a diminuição dos dias de internação e, consequentemente, o índice de infecção hospitalar.

A presença de brinquedotecas nos hospitais contribui para diminuir o estresse e o medo de medicações, seringas e exames, frequentes no tratamento. Essa foi a conclusão de um estudo com 58 crianças com idade entre quatro e 14 anos que faziam tratamento ambulatorial. Dessas, 34 tiveram acesso à brinquedoteca e 24 não tiveram contatos com brinquedos. A autora mediu o nível médio do cortisol no sangue (substância indicadora de nervosismo) e, obteve o valor de 11,20 ug/dl para o grupo que brincou e de 13,72 ug/dl, para o grupo que não brincou15.

Assim, pode-se afirmar que o brincar na brinquedoteca hospitalar é de extrema importância para a criança uma vez que possibilita o atendimento da necessidade de brincar, favorecendo a continuidade do seu desenvolvimento e a expressão das experiências do cotidiano hospitalar na tentativa de superá-las, por meio da catarse.

Para conhecer melhor como é o brincar da criança na brinquedoteca hospitalar e pela carência de estudos dessa natureza, foi elaborada esta pesquisa que teve como objetivos: identificar os brinquedos escolhidos pelas crianças durante o brincar na brinquedoteca hospitalar e conhecer os conteúdos expressos pela criança durante o brincar.

MÉTODOS

Pesquisa transversal, descritiva, de campo, com abordagem mista desenvolvida em um hospital infantil governamental, localizado na Zona Leste do Município de São Paulo.

A amostra, por conveniência, foi constituída por 60 crianças que frequentaram a brinquedoteca hospitalar, durante três meses consecutivos e que atenderam aos critérios de inclusão: crianças hospitalizadas em condições de frequentarem a brinquedoteca independente do tempo de hospitalização e patologia cujos pais concordaram que o filho participasse do estudo e que elas mesmas aceitaram participar segundo sua capacidade de escolha.

Os dados foram coletados no período de agosto a outubro de 2013, em uma ficha denominada “Registro de Dados”, estruturada em duas partes, uma para o registro de algumas características (idade, sexo e diagnóstico médico) e a outra para o registro dos conteúdos expressos pela criança durante o brincar na brinquedoteca hospitalar.

Ficou pré-determinado que a atividade de brincar na brinquedoteca tivesse a duração máxima de 60 minutos por ser um tempo adequado para o registro dessa atividade. Esse período foi baseado nos critérios utilizados na aplicação do brinquedo terapêutico, pela enfermeira, que estabelece o tempo de 15 a 45 minutos de brincadeira da criança. O tempo de brincar de algumas crianças ficou delimitado à motivação/desinteresse da própria criança ou interrupção por um profissional da enfermagem. Os dados qualitativos (conteúdos expressos) foram registrados sob a forma de narrativas pela pesquisadora, e submetidos à análise de conteúdo de Bardin16 O Projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Guarulhos sob o Parecer nº 318.102.

RESULTADOS E ANÁLISE DOS DADOS

A maioria das crianças era do sexo feminino (53,0%) e com idade entre três e seis anos de idade (66,0%).

Dos brinquedos escolhidos pelas crianças 19% estavam relacionados com as atividades hospitalares (estetoscópios, seringas, termômetros, otoscópio), 15% com jogos de quebra cabeça, 8% com utensílios de cozinha.

As situações apresentadas pelas crianças durante o brincar na brinquedoteca foram: 17% sobre situação doméstica; 22% situação hospitalar; 20% situação hospitalar e doméstica; 28% recreação, 3% situação hospitalar e recreação e 10% não brincaram.

A análise cuidadosa das narrativas que constituíram o corpus deste estudo sobre os conteúdos expressos pelas crianças durante a brincadeira, permitiu identificar seis categorias:

Vivenciando a rotina do cotidiano habitual; Necessitando do convívio com proteção dos pais; convivendo com os sintomas da doença; Necessitando realizar procedimentos; Percebendo os benefícios do tratamento e da hospitalização e Convivendo com o sentimento da morte, as quais são descritas logo a seguir.

CATEGORIA 1 - VIVENCIANDO A ROTINA DO COTIDIANO HABITUAL

Nesta categoria fica evidente que a criança ao brincar de fazde-conta, pode vivenciar a sua rotina doméstica e fazer um elo entre a casa e o hospital.

“Pegou o ferro e disse para que iria passar roupas; em seguida foi para o fogão dizendo que iria fazer bastante comida e que iria abrir um restaurante onde teria bastante comida”. (C3)
“Lavou louça; fez comidinha, comentou que a geladeira estava cheia de comida” (C4).
“Entrou na casinha fez suco de pera, mexendo a fruta com a colher dentro da panelinha; serviu suco de pera com limão para a pesquisadora e para outra criança. Lavou a laranja e também a ofereceu para a criança, fez sopa e ofereceu para a boneca”. (C43)
“Decidiu brincar de fazer compras no mercado, comprou frutas, legumes, utensílios de cozinha e passou-os pela esteira rolante”. (C52)

As crianças brincam com conteúdos que normalmente representam o ambiente em que vivem, trazendo para a brincadeira, contextos do seu cotidiano. Assim o brinquedo proporciona à criança o jogo faz-de-conta, no qual a criança representa papéis. Ao brincar com objetos como: panelinhas, fogão, ferro de passar e outros ela interioriza aquilo que vivencia no seu dia-a-dia em casa com a sua mae17. É no jogo simbólico que as brincadeiras são verdadeiras e se configuram em recriação das experiências vividas18.

CATEGORIA 2 - NECESSITANDO DO CONVÍVIO COM PROTEÇÃO DOS PAIS

Esta categoria evidencia a necessidade que a criança tem de um continuo relacionamento com os pais e de compartilhar com eles o que faz, uma vez que, a brincadeira é uma forma de se relacionar com eles.

“Telefonou para o pai e disse: oi pai, tudo bem? Vou passear de bicicleta, beijo, tchau; fez a boneca Barbie andar de bicicleta dizendo que ela não andava direito porque tinha as pernas compridas”. (C8)
“Atendeu telefone e disse: oi mãe, depois te ligo, beijos”. (C11)
“Pegou a boneca e simulou que ela estava fazendo uma ligação telefônica, dizendo: tá ligando para o pai dela”. (C44)
[...]; atendeu ao telefone dizendo: “alô, oi mãe, quê? Oi mãe, quem fala? É a mamãe? Tchau” (C55)

Sabe-se que a presença dos pais transmite segurança para a criança, e ajuda diminuir o estresse do processo doloroso e desconhecido da hospitalização. Ela encontra em seus familiares, além da força, a segurança que ela precisa para passar pelo processo da hospitalização. Assim sendo, a presença de um representante da família é fundamental18.

O vínculo afetivo constituído entre criança e o cuidador, geralmente a mãe, proporciona conforto, difunde segurança, produz satisfação das funções fisiológicas de alimentação, além do contato pele a pele e olho no olho, tão importante para a promoção do desenvolvimento emocional saudável19.

Um estudo, que objetivou caracterizar a importância da participação dos pais na hospitalização de crianças, a partir da literatura em saúde, constatou que a presença dos pais é uma base de segurança, de forma a permitir à criança, sentimento de confiança, favorecendo a exploração e o reconhecimento do ambiente20.

CATEGORIA 3 - CONVIVENDO COM OS SINTOMAS DA DOENÇA

Esta categoria evidencia que, na brincadeira, as crianças falam dos seus sintomas com os quais convivem durante o processo da doença.

“Pegou a boneca e disse que ela teria que tomar injeção porque estava com muita febre” (C 16)
“Examinou a boneca, disse que não estava com febre, em seguida teclando no computador, (cadeira) disse que estava pegando os exames dela que haviam dado infecção na urina (C29)
“Examinou a boneca, auscultou, aferiu temperatura e disse que o nenê estava com febre e com começo de pneumonia”. (C48)
“Depois disse que iria examinar outra criança afirmando que ela estava com infecção na urina e nos rins” (C51)

Monteiro21 ressalta que as crianças percebem que estão doentes quando os sintomas da doença se manifestam. Elas sentem as mudanças que ocorrem em seus corpos, bem como a impossibilidade para realizar atividades rotineiras. Em seu estudo, a autora também percebeu que as crianças tinham um maior conhecimento da doença, por meio dos sintomas que elas apresentavam e que a compreensão infantil sobre a doença é devido à necessidade que a criança tem de entender o que acontece com seu corpo.

CATEGORIA 4 - NECESSITANDO REALIZAR PROCEDIMENTOS

Esta categoria evidencia o prazer que a criança tem de reproduzir na brincadeira os procedimentos hospitalares que causam dor e dos quais tem tanto medo, para dominá-los e enfrentá-los. Quando a criança assim procede, é promovida a catarse, demonstrando o quanto o brincar na brinquedoteca é terapêutico para a criança.

“Disse que iria fazer injeção no bumbum dela e que não doeria nada”. (C24)
“Pegou o estetoscópio, pegou a boneca dizendo que era filha dela e que estava vomitando muito e que iria medicá-la. Disse que iria aplicar injeção no bumbum pra ela parar de vomitar”. (C32)
“Auscultou, olhou boca e ouvidos, palpou abdome, verificou a temperatura e disse que o soro é que estava causando a infecção, e que ela teria que ser internada porque era uma infecção grave; deu remédio na boca da boneca e disse que era para febre”. (C29)
“Pegou o estetoscópio e auscultou o abdome do pai. Auscultou o tórax e abdome da boneca, aplicou injeção no bumbum dela, dizendo que era para dor nas costas. Aplicou injeção EV várias vezes nos dois braços da boneca. Aferiu a temperatura e disse que ela não estava com febre”. (C42)
“Examinou a boneca, auscultou, aferiu temperatura; falou que iria dar remédio, mas que era só na boquinha e que ela não daria injeção no nenê”. (C48)
“A criança pegou a seringa e, correndo de um brinquedo para outro, voltava até a mesinha onde estava a boneca e lhe aplicava uma injeção no bumbum, (aplicou injeção na boneca por seis vezes)”. (C34)
“Criança pegou a boneca e aplicou três injeções no bumbum, sequencialmente“. (C45).
“Aferiu a temperatura da boneca e disse que ela estava com 38°C de febre, e que precisaria tomar dipirona, e a criança deu a medicação na boca da boneca com a seringa. Depois auscultou o coração por um bom tempo, disse que o nenê tinha virose e que precisaria internar por causa da febre, e que também precisaria ficar no soro. Aferiu a temperatura novamente e disse que agora a boneca estava com 23°C, e que precisava tomar dipirona de novo, mas que agora seria na veia. Aplicou a injeção na veia da boneca”. (C52)
“Disse que estava com tosse e que precisava internar porque ela estava muito doente, com água no peitinho e que precisava tirar, mas que ele não deixaria doer porque iria tirar a água pelo braço; pegou a seringa e simulou tirar água do braço da boneca”. (C54)

O simbolismo expresso na brincadeira de faz-de-conta contém uma carga emocional profunda e representativa de conteúdos e mecanismos inconscientes que prevê e combate o estresse da hospitalização, assim como resgata mecanismos saudáveis de autorecuperação, em seus aspectos físicos e psicológicos e auxilia a criança na expressão de seus desejos e fantasias22.

O brincar no ambiente hospitalar dá à criança a possibilidade de expressar seus sentimentos, de lidar com as adversidades e de readquirir a autoconfiança à medida que favorece a criação e a concretização de algo realizado por ela23.

Quando brinca a criança transforma em ativo o que sofreu passivamente. Nesse aspecto, o brinquedo tem função auto curativa, uma vez que auxilia a criança na elaboração de seus conflitos24.

Quando a criança simboliza uma situação hospitalar (procedimentos, exames, cirurgias etc.) a função catártica do brinquedo ajuda a criança a lidar com essa realidade que além de proporcionar alívio da ansiedade, gerada por essa experiência, favorece a mudança de comportamentos25.

Neste sentido, o presente estudo mostrou que brincar na brinquedoteca hospitalar atende os objetivos definidos por Cunha26, entre eles o de preparar a criança para o enfrentamento de novas situações por meio de atividades lúdicas.

CATEGORIA 5 - PERCEBENDO OS BENEFICIOS DO TRATAMENTO E DA HOSPITALIZAÇAO

Esta categoria evidencia que a criança ao brincar percebe a necessidade dos procedimentos, da hospitalização e do tratamento para a melhora, cura da doença e alta hospitalar. Mostra também a familiaridade da criança com a situação da doença e do tratamento.

“Examinou a boneca, auscultou, examinou boca e ouvidos; aplicou injeção no bumbum e na veia, dizendo que era para sarar o dodói na barriga” (C49)
“Disse que a bebê estava com febre alta e que iria escutar o coração dela” ... Falou que bebê iria melhorar, que ela daria remédio para ela e, que não ficaria internada, que iria para casa”. (C11)
“Disse que a boneca estava com bastante catarro e dodói no peito, que precisava internar para ela sarar. Disse que ela teria que tomar injeção no bumbum, mas que seria só uma e que não doeria”. (C53)
“Depois examinou a boneca e disse que ela estava doente, com dor de barriga, e que iria fazer injeção na veia dela para ela sarar”. (C40)
“A criança ficou admirada e disse que o nenê já havia melhorado, mas que precisava tomar remédio na boquinha”. (C 47)
“Examinou a boca e ouvidos, auscultou e disse que ela estava com dor de cabeça e que precisaria tomar remédio e injeção na veia. Após fazer a injeção na veia ela disse que a boneca já havia sarado e que poderia ir embora”. (C56)
“Ausculta a boneca e diz que ela precisava ficar internada porque estava com uma manchinha no pulmão igual a ela”. (C 57)
“Pegou a boneca no colo e lhe deu medicação na boca com a seringa (“é pra nenê melhorar; disse vou aplica injeção na barriga dela, não vai doer nada e você vai ficar boa”. (C11)

O brincar permite à criança, uma melhor compreensão sobre as situações e os procedimentos pelos quais passará, de modo a propiciar tranquilidade, segurança e adesão ao tratamento27.

Neste sentido a brincadeira durante a hospitalização promove o movimento entre mundo real e imaginário transpondo as barreiras do adoecimento, além de promover diversão, relaxamento, aliviar a tensão e possibilitar a criança expressar suas percepções, emoções, sentimentos e preocupações em relação à experiência de hospitalização28.

CATEGORIA 6 - CONVIVENDO COM O SENTIMENTO DA MORTE

Esta categoria demonstra que a criança pode conviver com sentimento de morte em situação de doença e hospitalização. Assim sendo, a morte (simbólica) emergiu nas brincadeiras das crianças, conforme as narrativas que se segue:

“Pegou a boneca e simulou que a mesma estava fazendo uma ligação telefônica, dizendo que ela estava ligando para o pai dela, porque a mãe dela (da boneca) havia morrido. Perguntei: morreu do que? Ela me respondeu: “morreu de urso” (C44)
“Pegou a boneca e examinou boca e ouvidos, auscultou e disse que o nenê estava com o coração parado” (C47)
“Pegou a boneca do carrinho, deitou-a na mesa e disse: o nenê tem dor de barriga. Examinou a boneca e disse: vou fazer injeção nela para sarar; em seguida disse que a nenê iria morrer. Ao ser interrogada pela pesquisadora sobre o porquê da morte da nenê, a criança respondeu: “ah, porque vai morrer”. (55)

De acordo com Torres29 a criança já tem uma representação da morte, desde uma etapa muito precoce, que vai evoluindo gradativamente paralelo ao desenvolvimento cognitivo. A hospitalização, por mais simples que seja o seu motivo pode levar a criança a uma experiência negativa, pois pode sofrer com sentimentos de ordem física, moral, espiritual, inclusive, o medo da morte30.

Muitas vezes, a criança percebe a hospitalização como um abandono por parte de seus pais, ou como punição pelos seus erros. Dessa forma ela pode apresentar sentimento de medo e fantasias relacionadas à morte gerando muita ansiedade e angústia31.

O sentimento de morte na criança, não surge somente quando esta é concreta, mas em diferentes situações ela pode estar associada à vida das crianças, como perdas ou frustrações de expectativas, a mudança de ambiente, a separação dos pais entre outros32.

CONCLUSÃO

A brinquedoteca pode ser considerada um espaço de oportunidades para a criança simbolizar os conteúdos hospitalares e domésticos e entender melhor o que esta acontecendo com ela e o brincar uma ferramenta importante para a criança lidar e expressar o que ela entende sobre sua doença e hospitalização.

Os resultados deste estudo apontam a necessidade das enfermeiras incluírem nas ações de enfermagem, o brincar, a fim de permitir que a criança vivencie o seu cotidiano hospitalar pois ao lidar com a doença, exames e tratamentos por meio do lúdico pode minimizar os efeitos deletérios da hospitalização.

Acredita-se que isto seja possível uma vez que a brinquedoteca hospitalar é hoje, uma realidade dentro da maioria dos hospitais e ambulatórios de atendimento à criança e sua família, facilitando à enfermeira, a inclusão da prática da brincadeira nos cuidados de enfermagem.

A pesquisadora reconhece a necessidade de outros estudos para aprofundar e ampliar o conhecimento da importância do brincar da criança na brinquedoteca hospitalar.

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