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Esfigmomanômetros para medida precisa da pressão arterial : disponibilidade, condições e o associado conhecimento do enfermeiro em Unidades Básicas de Saúde do município de Guarulhos.

Sphygmomanometers for accurate blood pressure measurement: availability, conditions and associated nurse Knowledge in Basic Health Units of Guarulhos Municipality
  • Natany Maia Mayoral
  • Victor Cauê Lopes
  • Edna Apparecida Moura Arcuri

RESUMO

A hipertensão arterial é uma doença de alta prevalência, com forte impacto socioeconômico devido sua associação com moléstias cardiovasculares. O uso de instrumentos precisos para medir a pressão arterial é fundamental para seu diagnóstico correto e mudança no perfil de morbimortalidade das doenças cardiovasculares. Objetivo: verificar a disponibilidade e condições dos esfigmomanômetros e estetoscópios nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) no município de Guarulhos e o correspondente conhecimento e comentários do enfermeiro. Método: Estudo com desenho transversal, realizado em 68 Unidades. As condições dos esfigmomanômetros e estetoscópios e o conhecimento do enfermeiro para usá-los foram verificados e registrados em dois instrumentos específicos. Método: Foram observados: deficiência de manguitos para crianças, adolescentes e adultos; de manômetros e algumas unidades; de estetoscópios com campânula infantil; queixas sobre dificuldades na manutenção e calibração dos instrumentos e demora no retornar o equipamento à unidade, além da falta de conhecimento dos enfermeiros em questões concernentes à esfigmomanometria. Resultados: Os achados sugerem suprimento de instrumentos adequados para medir precisamente a pressão arterial, em número que atenda adequadamente a demanda dos usuários; aquisição de manguitos adequados às diferentes circunferências braquiais; avaliação do fluxo e tempo para calibração dos instrumentos e programas de capacitação dos enfermeiros no tema.

Descritores: Hipertensão arterial , pressão arterial, esfigmomanômetros, enfermeiro.


Summary Sphygmomanometers for accurate blood pressure measurement: availability, conditions and associated nurse Knowledge in Basic Health Units of Guarulhos Municipality.

Hypertension is a highly prevalent disease with a strong socioeconomic impact because of its association with cardiovascular diseases. The use of precise instruments to measure blood pressure is essential for correct diagnosis and change in the morbidity and mortality of cardiovascular disease profile. Objective: To verify the availability and conditions of sphygmomanometers and stethoscopes in Basic Health Units (BHU) in Guarulhos and corresponding knowledge and comments of the nurse. Method: Crossover study design involving 68 units to identify conditions of sphygmomanometers and stethoscopes, Such conditions and nurse knowledge to use the blood pressure measurement equipment were recorded on two instruments. Results: We observed: deficiency of cuffs for children, adolescents and adults; lack of manometers; lack of bell stethoscopes for children; complaints about difficulties in the maintenance and calibration of instruments and delay in returning them to the unit; also lack of nurse’s knowledge regarding issues in Sphygmomanometry. Conclusions: The findings suggest the provision of adequate devices to accurately measure blood pressure in an amount that adequately meets user demand instruments; the acquirement of relevant cuff sizes to suit different arm circumferences. Also suggest attention to the manometers distribution and time to its calibration and training programs on the subject of nurses.

Descriptors: Hypertension , Sphygmomanometer, Blood Pressure, Nurse.

INTRODUÇÃO

A Hipertensão Arterial (HA) é o principal fator de risco para moléstias cardiovasculares, uma vez que as estruturas cardíacas encontram-se preparadas para bombear o fluxo sanguíneo nos vasos arteriais em estado de normotensão, condição fisiológica que significa bombear contra uma tensão correspondente à 120mmHg durante a sístole cardíaca, remanescendo no sistema arterial 80 mmHg no período diastólico. Portanto, os níveis de Pressão Arterial (PA) considerados normais correspondem a esses valores, sendo 96 MMHg a pressão média referida no tradicional compêndio de fisiologia de Arthur Guyton1.

As Doenças Cardiovasculares (DCV) também são responsáveis pelos elevados índices de internações, ocasionando custos médicos e socioeconômicos altos. Dados do DATASUS apontam que em 2007 foram registradas 1.157.509 internações por DCV no SUS. Em novembro de 2009 ocorreram 91.970 internações por DCV, resultando em um custo de R$ 165.461.644,332.

Ao ser enfocada a verticalização do conhecimento das multivariáveis do tema em apreço, deve-se ter em mente que a medida da pressão é um dos procedimentos mais realizado por enfermeiros e médicos no mundo4. Assim, acredita-se que esses profissionais devam ter conhecimento e competência para garantir a oferta de um cuidado correto, livre de erros e incontestavelmente acurado5,6.

É de bom alvitre salientar que, diante do exposto, devam ser estudadas todas as variáveis relacionadas à garantia de um cuidado qualificado, voltado para a redução do risco cardiovascular, visando à promoção, proteção e recuperação da saúde, princípios da lei 8080/90 do SUS, e, por conseguinte, reduzir a taxa de mortalidade por moléstias cardiovasculares. Estudos vêm demonstrando a precariedade e insuficiência de instrumentos para medir a pressão arterial, porém vêm sendo realizados em hospitais e consultórios6,7. Este estudo tem a finalidade de identificar o número, tipo e condições dos estetoscópios e esfigmomanômetros disponíveis nas UBS do município de Guarulhos e verificar os tamanhos, tipos de fechamento dos manguitos disponíveis e o conhecimento do enfermeiro sobre as dimensões dos manguitos.

MÉTODOS

Trata-se de estudo transversal, de campo, com delineamento quantitativo. Os dados foram coletados em 68 Unidades Básicas de Saúde do município de Guarulhos, durante o primeiro semestre de 2012.

Os critérios de inclusão foram: ser um(a) dos(as) enfermeiros(as) da unidade, independentemente do tempo em que atua na instituição, uma vez que todos são treinados em programas de capacitação. Como critério de exclusão apenas aqueles que não concordaram em assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa (inserir numero da aprovação) e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice I) assinado por todos os entrevistados. Foi agendada a data da visita de cada UBS através de contato telefônico com o(a) gerente e/ou enfermeiro(a) da unidade. Na visita, a pesquisadora explicava ao entrevistado os objetivos da pesquisa e após assinatura do TCLE iniciava a entrevista com o formulário (Apêndice I), onde o(a) enfermeiro(a) respondia as questões e em seguida verificavam-se as condições dos equipamentos utilizados para a medida da pressão arterial da respectiva unidade, em questão de número, funcionamento, reparo ou em reserva, onde os manguitos foram medidos em comprimento e largura através de uma fita métrica não distensível, observando-se também o sistema de fechamento das braçadeiras e suas condições através da marca no manômetro, verificando assim se a mesma é aprovada pelo Inmetro, através do segundo formulário (Apêndice II).

RESULTADOS

Os resultados serão apresentados inicialmente em relação à disponibilidade do instrumental para a medida da PA nas UBS e posteriormente os dados referidos pelos enfermeiros com relação ao conhecimento e condições de uso e reparo dos aparelhos disponíveis nas unidades.

Com relação à disponibilidade de manguitos apenas 1% das unidades apresentavam tamanho específico para adolescentes, enquanto aproximadamente metade (43%) dispunha de manguito adulto infantil e obeso. Todos os esfigmomanômetros encontrados nas unidades eram do tipo auscultatório aneróide. As medidas dos manguitos são apresentadas na Tabela I.

Tabela I. Dimensões do manguito das UBS do município de Guarulhos. Guarulhos, 2012.

Tabela I. Dimensões do manguito das UBS do município de Guarulhos. Guarulhos, 2012.

Os estetoscópios de diafragma adulto e infantil estavam presentes em 34% dos locais investigados e apenas 22% dispunham de estetoscópios de campânulas e diafragmas adulto e infantil. Chama a atenção também a quantidade de unidades de saúde que apenas utilizavam diafragma adulto (7,5%).

O número total de estetoscópios avaliados são apresentados na Tabela II, segundo número de funcionantes, em reparo e novos em reserva.

Tabela II. Distribuição dos estetoscópios UBS(s) de Guarulhos: Frequência (n); Média (); Valor Mínimo (V Min.); Valor Máximo (V Max). Guarulhos, 2012.

Em relação ao reparo do instrumental que apresenta defeito, sabe-se que estes são enviados para o setor de manutenção da prefeitura de Guarulhos.

As braçadeiras de velcro e botões estavam presentes na maioria das UBS (67%), as demais possuíam apenas braçadeiras com fechamento em velcro.

Doze marcas de manômetros foram identificadas, duas delas não constavam nas portarias do Inmetro.

Quanto ao conhecimento do enfermeiro sobre as dimensões do manguito do 41% responderam que “deve ser de acordo com o biótipo do paciente”, outros 19% de acordo com a circunferência do braço do paciente . Demonstrando total desconhecimento no tema outros profissionais referiram que o tamanho adequado dependeria de fatores como peso do paciente, em torno de 26 a 32 cm, 30cm, 1/3 do tamanho do braço do paciente e 80% da circunferência braquial.

Quando questionados se o número disponível de manômetros para as unidades era suficiente 38% dos enfermeiros responderam que não.

Alguns apontamentos foram feitos por 29% dos enfermeiros que desejaram expressar outras considerações com relação a medida da pressão arterial em suas unidades:

  • A qualidade dos estetoscópios é ruim, dificultando a ausculta cardíaca e pulmonar;
  • Há escassez de material;
  • Deveria existir aparelho de pedestal;
  • Há deficiência e demora na manutenção dos aparelhos;
  • Deveria existir aparelho eletrônico;
  • Há inadequação do velcro para fechamento do manguito;
  • Faltam aparelhos para obesos; • Faltam aparelhos infantis;
  • Pouca durabilidade dos aparelhos após retorno da manutenção;
  • Os aparelhos deveriam ser de coluna de mercúrio, pois são mais fidedignos;
  • Deveria existir a renovação constante dos materiais;
  • Profissionais usam aparelho digital próprio, por escassez de material.

DISCUSSÃO

As visitas efetuadas nas 68 UBS de Guarulhos permitiram verificar a oferta de esfigmomanometros para a população, os problemas relacionados aos aparelhos, bem como o conhecimento dos enfermeiros sobre esfigmomanometria.

Nossos achados estão em consonância com a constatação pioneira de Araujo et al4, que atestaram a deficiência no conhecimento de enfermeiros da área de cardiologia sobre o procedimento da medida da PA, os quais não conheciam os parâmetros das dimensões adequadas para o manguito.

Constatou-se deficiência relacionada à esfigmomanometria encontrada nas unidades que possuíam apenas os manguitos de dimensões básicas para adultos, tamanho padrão, podendo causar hipo ou hiperestimação dos níveis pressóricos registrados dos clientes que não se enquadram neste tamanho de manguito, como verificado por Arcuri8, sendo este um grande problema enfrentado não apenas por enfermeiros, mas também pelos pesquisadores na área de medida da PA. Essa questão pode ser abordada em programas de educação permanente/continuada.

A falta de disponibilidade de aparelhos é preocupante6 e calibração é tema de outros estudos por enfermeiros do Brasil10, 11. Embora a maior parte dos entrevistados tenham afirmado que o número de esfigmomanometros era suficiente em diversas unidades, observou-se deficiência de aparelhos para adolescentes e estetoscópios de campânula infantil, os quais são os mais qualificados para a ausculta dos sons de Korotkoff12.

Quanto aos tipos de estetoscópios constatou-se insuficiência de campânula infantil, visto que mais da metade das unidades não possuem este instrumento de uso recomendado e que a utilização da campânula sobre a artéria braquial no espaço antecubital facilita a detecção de sons de baixa freqüência12.

O reparo dos aparelhos das unidades estudadas eram realizados no próprio município por um setor de manutenção da própria prefeitura. Serviço este questionado pelos entrevistados, principalmente pela má qualidade e demora no serviço prestado.

Quando foi solicitado aos enfermeiros sobre outras questões que pudessem ser indagadas, chamou à atenção a referência de esfigmomanômetros de coluna de mercúrio. Entretanto o uso desse instrumento vem sendo questionado devido a questões ambientais, dado a toxicidade do mercúrio. Por determinação do Inmetro, estes foram retirados da prática assistencial, medida que gerou reação de pesquisadores da área13. Por ser o instrumento mais fidedigno para verificar a pressão arterial, considerado padrão ouro, sabe-se que estes aparelhos continuam sendo usados em outros países.

Quanto ao tipo de fechamento da braçadeira, identificou-se elevado número de braçadeiras com sistema de fechamento de botões, sendo estas de maior dificuldade para o manuseio dos profissionais, já que os locais em que são fixados os botões na braçadeira nem sempre se ajustam adequadamente ao braço do paciente. Sabe-se que é comum o observador inflar a câmara para melhor adaptá-la ao braço, o que se torna fonte de erro na medida da pressão.

Foram encontradas variadas dimensões relacionadas à bolsa inflável, conforme as classificações dos manguitos (infantil, adolescente, adulto e adulto obeso).

As dimensões da bolsa inflável do manguito, conforme Arcuri8, devem ser de acordo com a circunferência do braço do paciente. Bolsas estreitas em relação ao braço do paciente. Bolsas estreitas em relação ao braço podem acarretar leituras falsamente elevadas levando ao diagnóstico incorreto da hipertensão arterial, situação típica do paciente obeso. Por outro lado, bolsas muito largas induzem a valores falsamente baixos da PA, dificultando o diagnóstico precoce da doença nas pessoas magras.

Outro preocupante aspecto investigado revelou a existência de instrumentos não validados nas unidades, em consonância com o verificado por Pierin10.

CONCLUSÃO

Os achados deste estudo sobre o equipamento para medir pressão arterial permitiram concluir que:

Há deficiência de esfigmomanômetros infantis, adolescentes e de estetoscópios de campânula infantil. Existe discrepância na distribuição dos aparelhos das unidades, justificada em princípio, pelo fluxo de atendimento de cada unidade. Verificou-se que os enfermeiros estavam insatisfeitos com o serviço prestado pela Prefeitura de Guarulhos, com relação à manutenção dos aparelhos, pela demora na retirada, devolução e má qualidade. Há nítida falta de conhecimento dos enfermeiros entrevistados sobre as questões concernentes à esfigmomanometria.

É de bom alvitre salientar que os achados sugerem suprimento adequado dos instrumentos para a medida correta da PA, número suficiente para a demanda da população, aquisição de manguitos adequados às diferentes circunferências braquiais, avaliação do fluxo de usuários, para uma melhor distribuição dos aparelhos e planejamento de tempo hábil para calibração e manutenção dos instrumentos. Sugerem ainda a inserção constante de programas de capacitação dos enfermeiros relacionados com a medida da PA, constituindo assim, uma educação continuada/permanente.

Referências

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  2. 2. DATASUS. Ministério da Saúde. Disponível in http://www2.datasus.gov. br/DATASUS//: índex. php?área=0203; Acesso em 09 fev 2014
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