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Estratégias de Humanização para o atendimento ao idoso hospitalizado: uma revisão integrativa*

Humanization strategies for the healthcare ofthe hospitalized elderly: an integrative review
  • Luiza Ferreira Lobo
  • Ana Claudia Puggina
  • Wagner Vicente Silva dos Santos

RESUMO

O prolongamento da expectativa de vida tem levado ao envelhecimento da população. À medida que a pessoa envelhece, maiores são as chances de desenvolver uma doença crônica, que acompanha o idoso por um longo período de tempo. Neste contexto, a necessidade de internação é mais frequente, contribuindo para o surgimento de situações que comprometem o cuidado humanizado a esta população. O objetivo do estudo foi identificar na literatura recomendações e/ou estratégias para o atendimento humanizado do idoso hospitalizado. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada por meio de busca eletrônica no portal da Biblioteca Virtual de Saúde no período de março e abril de 2014, tendo como critério de inclusão artigos de 2004 a 2014. A amostra final foi constituída de seis estudos. A análise permitiu apontar que há poucas estratégias ou recomendações práticas sobre o processo de humanização do atendimento ao idoso em situação de hospitalização. Foi possível evidenciar que o uso de estratégias de comunicação, o trabalho em equipe, o embasamento bioético das ações de cuidado e a utilização de musicoterapia constituem fatores importantes para a assistência humanizada à população idosa. Apesar das limitações do estudo, evidenciou-se a necessidade de novas pesquisas sobre a temática.

Palavras-chave: Humanização da assistência. Idoso. Pacientes internados. Comunicação.


SUMMARY - The increase in life expectancy has led to an aging population. As a person grows old, greater are his/her chances of developing a chronic disease, that he/she will experience for a long period. In this context, the need for hospitalization is more frequent, which contributes to the onset of situations that compromise the humanized care given to this population. The objective of this study was to identify in the literature recommendations and/or strategies for the delivery of a humanized care to the elderly hospitalized. It is an integrative literature review carried out by means of an electronic search in the Virtual Health Library website, during March and April 2014, and the inclusion criteria was articles published from 2004 to 2014. The final sample was constituted of six studies. The analysis revealed that there are few strategies or practical recommendations about humanized care given to the hospitalized elderly. The results showed that the use of communication strategies, teamwork, bioethical principles of actions of care and the use of music therapy constitute important factors for the provision of a humanized healthcare to the elderly population. Despite the limitation of the study, it has identified the need for further researchs to be developed on this topic.

Key-words: Humanization of healthcare. Elderly. Admitted patients. Communication.

INTRODUÇÃO

Da concepção à morte, o organismo humano passa por diversas fases: desenvolvimento, puberdade, maturidade ou estabilização e envelhecimento. O envelhecimento manifesta-se pelo declínio das funções dos diversos órgãos que, caracteristicamente, tende a ser linear em função do tempo, não permitindo a definição de um ponto exato de transição, como nas demais fases¹.

A população está envelhecendo e o número de pessoas idosas cresce em ritmo maior do que o número de pessoas que nascem; ou seja, à diminuição da mortalidade e da fecundidade e o prolongamento da expectativa de vida têm levado ao envelhecimento da população. Essa equação vem acarretando um conjunto de situações que modificam a estrutura de gastos dos países em uma série de áreas importantes, pois tem sido uma tendência mundial. No Brasil, o ritmo de crescimento da população idosa tem sido sistemático e consistente. A tendência de envelhecimento da população observada nos últimos anos foi refletida no crescimento da participação dos grupos etários mais elevados. Em 2004, o grupo de 60 anos ou mais correspondeu a 9,7% da população, enquanto em 2009 foi de 11,3%; atualmente o grupo de idosos ocupa um espaço significativo na sociedade brasileira².

O envelhecimento é um processo dinâmico e progressivo, no qual há modificações morfológicas, fisiológicas, bioquímicas e psicológicas que determinam perda gradual da capacidade de adaptação do individuo ao meio ambiente, ocasionando maior vulnerabilidade e maior incidência de processos patológicos que terminam muita das vezes, por levá-lo a morte³. À medida que a pessoa envelhece, maiores são as chances de desenvolver uma doença crônica, que passa por etapas de desenvolvimento e acompanha a pessoa por um longo período de tempo, podendo ter fases agudas, momentos de piora ou melhora sensível.

O próprio envelhecimento torna o idoso uma pessoa suscetível a tais doenças, gerando consequentementes incapacidades funcionais4. Esse comprometimento funcional traz implicações diretas ao indivíduo e ao sistema de saúde, uma vez que ocasiona maior dependência do idoso e o torna um dos principais usuários dos serviços de saúde no âmbito hospitalar5.

O progresso tecnológico é fundamental para a resolutividade dos problemas na saúde e para a manutenção da vida das pessoas, pois se têm observado que as condições crônicas são cada vez mais prolongadas, ou seja, as pessoas estão sobrevivendo muito tempo com as patologias, e isso faz com que a necessidade de internação seja mais frequente. Contudo, por outro lado, este avanço tecnológico traz consigo situações e dilemas que comprometem a atenção integral e humanizada ao paciente6.

Em virtude do acelerado progresso técnico e científico no âmbito da saúde, o respeito à dignidade humana parece ser colocada em segundo plano. A doença, muitas vezes, torna-se o principal e único objeto de atenção, sendo desarticulada do indivíduo no qual ela se aloja e desenvolve7. À medida que se ganha em tecnologia e interdisciplinaridade no atendimento ao paciente, regride-se em termos de cuidado integral e humanístico prestado, visto que cada paciente passa a ser objeto do fazer, recebe um codinome relacionado ao número do leito que ocupa e se torna um sujeito passivo e pouco integrado ao tratamento durante sua permanência no hospital8.

Esta prática pode ser potencializada pelas ações dos profissionais da área da saúde, que se tornam gradativamente insensíveis para com o sofrimento humano, favorecendo o processo de desumanização na assistência. Exemplos disto podem ser citados: a mecanização no atendimento, desrespeito com o usuário da saúde, falta de comunicação, entre outros fatores que permeiam o cuidado, merecendo maior atenção no aspecto técnico e procedimental do cuidar, relegando ao humanismo papel coadjuvante8.

A reflexão a respeito do sentido de compreender o valor da vida no processo do cuidado, não inclui somente atribuições técnicas profissionais, saberes científicos, avanços tecnológicos, mas a capacidade de perceber o ser humano, como ele constrói seus projetos de vida, sua individualidade6. No contexto de atenção ao idoso é necessário ter a consciência de que o ser humano em idade avançada é um conjunto de experiências e vivências que influenciam o cuidado e, portanto, devem ser consideradas.

Cuidar é o centro das ações de enfermagem9 e, particularmente no que tange à atenção à pessoa idosa, deve ser compreendido e implementado em sua total amplitude, aliando a expertise da ciência do cuidado à delicadeza do trato nas relações e à sensibilidade para identificação de demandas, valores e expectativas individuais. O profissional que cuida precisa enxergar o idoso de modo holístico: físico, mental, emocional, social, cultural, espiritual; além de valorizar demandas identificadas em cada uma destas dimensões de maneira equitativa. Contudo, no atual contexto das instituições hospitalares, focado em doenças, processos e protocolos, esta delicada arte de cuidar é, por vezes, negligenciada. A consequência disto tem sido idosos que são ignorados, apressados, excessivamente expostos em sua dignidade, incógnitos em seus valores e demandas individuais, tratados com desrespeito.

Para intervir nesta conjuntura faz-se necessário que os profissionais da saúde possam ir além do tecnicismo e prática focada na doença. É preciso considerar a totatlidade e integralidade humana e saber como implementar ações de cuidado que atendam aos idosos em situação de internação hospitalar para além de suas demanadas de cunho fisiológico. Assim, questiona-se: quais estratégias ou ações concretas de cuidado podem ser utilizadas para a humanização da atenção ao idoso hospitalizado? O intuito do presente estudo é buscar respostas a este questionamento. Estratégias

OBJETIVO

Identificar na literatura recomendações e/ou estratégias para o atendimento humanizado do idoso hospitalizado.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo de revisão integrativa da literatura, método que consiste na análise de textos com o propósito de reunir e sintetizar resultados de estudos anteriores sobre determinado assunto, a fim de obter profundo conhecimento do tema investigado, além de determinar se o conhecimento é válido para ser aplicado à prática10-11.

Para a construção desse tipo de revisão é necessário seguir um processo de seis etapas, que foram adotadas neste estudo, a saber: identificação do tema e pergunta de pesquisa; definição dos critérios de inclusão e exclusão dos estudos e amostra; síntese dos estudos selecionados em formato de tabelas, formando um banco de dados; análise crítica dos achados, identificando diferenças e conflitos; interpretação dos resultados; e, por fim, a apresentação da revisão10.

Partindo-se da pergunta: “Quais estratégias são recomendadas para o atendimento humanizado ao idoso hospitalizado?”, o estudo foi desenvolvido no período de dezembro de 2013 a maio de 2014, a partir de cronograma estabelecido. Entre março e abril de 2014 foi realizado levantamento bibliográfico na Biblioteca Vitural em Saúde (BVS), considerando-se as bases de dados LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), SciELO (Scientific Electronic Library Online), MEDLINE (Medical Literature Analysis and Retrieval System Online) e utilizando-se os descritores humanização da assistência e idoso, com o recurso boleano AND.

Para a seleção dos textos foram considerados os seguintes critérios de inclusão: artigos publicados entre 2004 e 2014, nos idiomas português, espanhol ou inglês, apresentação do texto em versão digital na íntegra e pertinência temática. Foi excluída automaticamente toda produção duplicada e aquelas que não atenderam aos critérios de inclusão.

Para facilitar a coleta e análise dos dados foi elaborado um instrumento para assegurar o registro dos dados relevantes à pesquisa e garantir a totalidade das informações, além de possibilitar a checagem dos estudos utilizados. Neste instrumento havia destaque para os seguintes aspectos: dados de identificação do artigo (título, autores, periódico, ano, local de publicação, idioma); objetivo; método, principais resultados e conclusões. A análise dos dados foi realizada por meio de leitura informativa do resumo e, segundo o critério de pertinência à temática explorada, os artigos de interesse foram capturados em sua versão integral para leitura exploratória e crítica.

RESULTADOS

A pesquisa inicial na Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) contemplou um universo de 70 estudos. Aplicando-se os critérios de idioma, período e disponibilidade integral do texto em meio eletrônico para filtragem foram evidenciados 42 artigos. Destes, de acordo com a pertinência temática explorada – assistência humanizada ao idoso hospitalizado, foram selecionados apenas 6 estudos por meio de leitura exploratória e na íntegra, que compuseram a amostra final de artigos. Destaca-se que muitos estudos eliminados utilizavam como descritores ou palavras chave o termo humanização/assistência humanizada, mesmo não sendo esta a temática estudada. O quadro 1 mostra, de modo sintético, os artigos selecionados:

Identificar na literatura recomendações e/ou estratégias para o atendimento humanizado do idoso hospitalizado.

Identificar na literatura recomendações e/ou estratégias para o atendimento humanizado do idoso hospitalizado.

Em relação ao ano de publicação dos estudos da amostra, verificou-se concentração de três trabalhos12-14 divulgados nos ano de 2008, dois5,16 em 2011 e um15 em 2010, denotando fragilidade na produção científica sobre a temática. O conhecimento divulgado sobre humanização no atendimento ao idoso analisado neste estudo denota apropriação e efetiva participação do enfermeiro na discussão da temática, uma vez em todos os trabalhos analisados o profissional enfermeiro esteve presente na autoria ou co-autoria, como mostra a tabela 1. Destaca-se, ainda, que nos artigos em que o enfermeiro foi co-autor, houve trabalho em conjunto com demais membros da equipe multiprofissional de saúde, como médico (artigo 1)12, fisioterapeuta (artigo 6) 16.

Tabela 1 – Descrição dos artigos selecionados e as categorias profissionais encontradas em cada publicação. São Paulo, 2014.

O protagonismo do enfermeiro na produção sobre humanização analisada também pode ser salientada ao considerar-se os meios de divulgação. Dos seis artigos, quatro (66,6%) foram publicados em periódicos de enfermagem, a saber: Revista Brasileira de Enfermagem5, Revista Eletrônica de Enfermagem13, Revista da Escola de Enfermagem Anna Nery14 e Revista de Enfermagem da Universidade Estadual do Rio de Janeiro15. Os demais foram publicados em periódico médico (Arquivo Catarinense de Medicina12 e multidisciplinar (Estudo Interdisciplinar do Envelhecimento16.

Referente ao idioma de publicação na amostra analisada, os seis estudos foram encontrados na língua portuguesa, o que é justificado pelo fato da dificuldade de acesso a estudos na íntegra em versão digital em periódicos internacionais, acesso restrito à assinantes dos mesmos.

A análise dos principais resultados e/ou considerações mais relevantes dos seis artigos permitiu apontar que há poucas estratégias ou recomendações práticas sobre o processo de humanização do atendimento ao idoso em situação de hospitalização. Neste sentido, destacaram-se:

Estratégias de comunicação adequadas individualizam o cuidado

Por meio de estudo com entrevistas semi estruturadas com a equipe de enfermagem de uma unidade de terapia intensiva, a comunicação foi apontada no estudo de Barlem e colaboradores13 como excelente instrumento para humanização do cuidado, à medida que possibilita a individualização da assistência e a prestação de cuidado multidimensional. O processo de comunicação está inserido nas práticas de enfermagem, cabendo ao enfermeiro interpretar e entender as mensagens transmitidas pelos pacientes. Sendo assim, a comunicação permite ao enfermeiro traçar um plano de cuidados apropriado as necessidades individuais do paciente, constituindo ainda um modo de transmitir segurança, respeito, carinho, para muito além do conteúdo das explicações técnicas sobre seu estado de saúde13. Argumentos semelhantes foram apontados por Martins et al.12, ao afirmarem que o uso de tecnologias relacionais, tais como o acolhimento, o vínculo e a troca de saberes por meio de uma relação empática, contribuem positivamente para a adaptação do idoso à hospitalização, sendo componentes essenciais do cuidado humanizado.

Em contrapartida, Prochet e Silva14 evidenciaram que a desatenção ou mal uso da comunicação pode contribuir para a desumanização do cuidado ao idoso. As pesquisadoras apontaram em relatório de pesquisa realizada com 30 idosos hospitalizados que comportamentos comunicacionais inadequados da equipe de saúde são reconhecidos pelos pacientes quando estes sentem-se invadidos em seu espaço pessoal e territorial durante internação. Destacaram que o excesso de ruído provocado pela equipe, o toque e manipulação do cliente sem consentimento e a desatenção à privacidade em situações de exposição do corpo são fatores que dificultam a humanização da assistência à pessoa idosa.

Trabalho em equipe centrado no paciente é um importante principio para a humanização

O trabalho realizado por meio do compartilhamento de distintos saberes das diferentes categorias profissionais que compõem a equipe de saúde afasta-se do foco centrado ao modelo biomédico de doença e aproxima-se do paradigma do cuidado humanístico, pois volta-se para o paciente, pessoa humana12. Assim, o trabalho em equipe também pode ser apontado como recurso efetivo para a humanização da atenção ao idoso na prática assistencial12-15.

Neste sentido, o paciente idoso pode ser compreendido em seu contexto histórico, social, político, cultural, articulado ao seu contexto familiar, ao ambiente e à sociedade ao qual está inserido. Esta visão holística do paciente torna-o um ser indivisível de suas características psicológicas, físicas, sociais, por isso é necessária à atenção de uma equipe multidisciplinar, com profissionais que possam atentar para todas essas dimensões15.

Este tipo de trabalho perpassa não somente pela organização e colaboração entre as equipes, mas sim pela transdisciplinaridade, em que o produto gerado (atenção ao paciente) é potencializado e ultrapassa as próprias disciplinas, resultando em melhor qualidade da assistência.

Embasamento bioético das ações do cuidado auxilia na manutenção da autonomia do paciente

Martins e seus colaboradores12 apontam que para muitos idosos o processo de hospitalização pode representar momentos de fragilidade, maior sensibilidade para o medo, sofrimento e insegurança. Estes sentimentos somados à queda de funcionalidade e dependência física podem potencializar a dificuldade de tomar decisões autônomas5. Frente a isto, a tendência dos profissionais é agregar para si o poder decisório sobre as ações e as relações de cuidado com os idosos hospitalizados. Deste modo, percorrese o contra fluxo do princípio de humanização.

O embasamento bioético das ações de cuidado deve ser considerada para a atenção humanística ao idoso hospitalizado. São princípios bioéticos a autonomia, justiça, beneficência e não-maleficência. Carreta, Bettinelli e Erdmann5 apontam o respeito à autonomia do idoso como prática essencial para promover a integralidade do paciente, considerando seus desejos, valores e crenças particulares. A possibilidade de promover a coparticipação do idoso na elaboração de rotinas que envolvem seu atendimento pode ser uma alternativa de avanço no maior respeito à autonomia e direito de tomada de decisão com e para os mesmos.

Musicoterapia acessa o ser humano em sua totalidade

O uso da música foi apontado por Mozer, Oliveira e Portella16 como estratégia humanizadora para a atenção ao idoso em situação de institucionalização. A musicoterapia evidenciou melhora na qualidade de vida dos idosos estudados no que se refere principalmente à capacidade funcional, dor, aspectos emocionais e psicosociais, envolvendo melhora da autoestima, bem estar pessoal e interação social. Apontam a música como estratégia humanizadora do cuidado nos hospitais, constituindo um meio de reduzir o nível de estresse, ansiedade, depressão, isolamento social, sinais típicos do processo de hospitalização16.

DISCUSSÃO

Nota-se carência na produção e divulgação científica sobre a temática humanização no atendimento ao idoso na última década, tendo em vista o pequeno número de trabalhos que puderem ser resgatados para análise nesta pesquisa. Embora desperte grande interesse dos profissionais frente à necessidade de resgate dos valores humanísticos na atenção ao paciente, a temática da humanização ainda não gera relevante produção de novos conhecimentos, o que impede o avanço da discussão desta problemática e consequente mudança do contexto17.

A fragilidade na produção científica sobre a temática humanização do atendimento ao idoso também pode ser evidenciada quando se consideram os aspectos metodológicos que abarcaram os estudos analisados nesta pesquisa. Dentre os seis artigos considerados, todos contextualizam a problemática da desumanização da assistência em saúde, porém dois deles eram de cunho teórico filosófico, discorrendo de modo crítico e reflexivo sobre o problema; três exploravam a questão de modo qualitativo, buscando a compreensão do fenômeno sob a ótica de profissionais e/ou pacientes, citando de modo superficializado estratégias e recomendações concretas e apenas um testou e comprovou a eficácia de uma ação/intervenção objetiva.

Por ser a temática da humanização complexa e subjetiva em sua essência, justifica-se maior número de trabalhos com método qualitativo, pois esta abordagem metodológica busca compreender a representação do fenômeno e seu significado individual ou coletivo na vida das pessoas18. Esta problematização e compreensão do fenômeno são importantes para a ancoragem de investigações na temática, contudo também se faz necessária maior exploração da temática sob outras óticas, que evidencie, proponha, teste e avalie estratégias ou ações humanizadoras concretas no contexto de atenção ao idoso, que possam ser utilizadas em distintas realidades de atenção à saúde desta população específica.

O destacado interesse do enfermeiro pelo assunto pode ser justificado pelas próprias características de seu trabalho, ou seja, atenção próxima e ininterrupta ao paciente idoso durante seu período de internação hospitalar. É o enfermeiro e a equipe por ele coordenada que estão continuamente presentes e fisicamente mais próximos do paciente internado, em virtude dos cuidados físicos ofertados ao idoso, relativos à alimentação, higiene, conforto e administração de medicamentos.

A utilização de estratégias de comunicação, o trabalho em equipe, a fundamentação bioética das ações de cuidado e a utilização de musicoterapia foram apontados como fatores importantes para a assistência humanizada à população idosa e mostram-se coerentes com o pressuposto central da Política Nacional de Humanização (PNH): atenção integral para minorar a dor e sofrimento humano19. Vigente no Brasil desde 2004, a PNH aponta que para a melhora da qualidade de atendimento ao usuário é necessário aliar eficiência técnico-científica aos princípios e valores de solidariedade, respeito e ética nas relações entre profissional e paciente. Para tanto, destaca a necessidade de estabelecimento de vínculos solidários entre usuários do serviço e profissionais, de identificação de necessidades individuais de saúde e da participação ativa e autônoma do paciente no processo decisório acerca das ações de cuidado às quais será submetido.

Neste contexto, a comunicação recebe destacada atenção, por ser instrumento básico da assistência efetiva20. É por meio das ações comunicativas que se estabelecem vínculos, relações solidárias concretas e cuidado individualizado e humanístico. Assim, na interação com o paciente, o enfermeiro deve considerar as dimensões verbal (palavras, discurso) e não verbal (gestos, expressões faciais, tom de voz, postura do corpo) do processo de comunicação, utilizando estratégias tais como o uso de termos simples e de fácil compreensão para favorecer a clareza na transmissão de informações, a verbalização de solicitude e disponibilidade para o cuidado, a disposição para escuta por meio do estímulo à verbalização de sentimentos, dúvidas, demandas e valores, o sorriso e o toque compassivo, a presença mais frequente, a conversa leve e bem humorada, o uso de termos simples e de fácil compreensão, entre outras. Habilidades de comunicação são essenciais para conhecer o sujeito protagonista do cuidado (paciente) e seu contexto significativo (familiares), para a exploração de suas demandas individuais, nas dimensões física, emocional, social e espiritual e direcionamento das ações de cuidado21.

Para a atenção humanística ao idoso hospitalizado também deve ser valorizado o trabalho em equipe, uma vez que há limitação na ação uniprofissional quando se objetiva promover atenção multidimensional, integrando ao cuidado os aspectos sociais, psicológicos e espirituais, de modo a possibilitar o exercício da autonomia do paciente e brindar suporte aos familiares. Nenhuma especialidade da área de saúde ou das ciências humanas consegue isoladamente dar conta das necessidades complexas e multifacetadas dos indivíduos.

O trabalho em equipe configura-se na relação recíproca entre as múltiplas intervenções técnicas de vários profissionais e a interação destes. Constitui maneira mais aprimorada de grupo de trabalho e o que determina esse desenvolvimento é o esforço coletivo na busca de objetivos e metas comuns, além da confiança e respeito mútuos entre os membros. Somente com a coesão entre profissionais da equipe, que atuam articulando em torno de objetivo único seus saberes oriundos das diferentes disciplinas, tomando decisões com cooperação mútua e complementaridade de ações é possível atingir a eficácia, a eficiência e a efetividade da assistência intergral e humanística ao ser humano22.

As interações e ações de cuidado devem estar fundamentadas em princípios bioéticos para a humanização da atenção à população idosa hospitalizada. Neste sentido, o princípio da autonomia precisa ser considerado para que o respeito à dignidade da pessoa humana, seus valores e opções possam ser ancorados e exercidos pelos profissionais. Também o princípio da justiça, que impõe o dever de distribuir recursos e atenção de modo equitativo e pontua ao profissional que ser justo não é tratar igualmente todos os pacientes, mas considerá-los todos especiais, já que um possui necessidades, condições clínicas e sociais diferentes. Beneficência e não maleficência são princípios associados à excelência da ação profissional e tratam da obrigação moral de atuar em beneficio de outros, sem causar-lhes prejuízo, maximizando seu bem estar no que tange à saúde física e emocional20,23.

Nesta proposta de valorização da autonomia e integridade do indivíduo, levanta-se a possibilidade da música também como recurso para humanização e individualização do cuidado ao idoso. O uso da música para curar, aliviar ou estimular, é conhecido desde a mitologia antiga e, na atualidade, aliada aos tratamentos alopáticos, têm proporcionado bem-estar físico e mental a uma ampla variedade de distúrbios24.

A música pode desenvolver potenciais e/ou restabelecer funções do indivíduo para que ele possa alcançar melhor integração intra e/ou interpessoal e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida pela prevenção, reabilitação ou tratamento. Na enfermagem, é utilizada como uma intervenção complementar para alívio da dor, da angústia espiritual, de distúrbio do sono, de desesperança, de risco para solidão, de isolamento social e de estresse25.

Música é uma arte de combinar os sons de modo a agradar aos ouvidos, trazer à tona sentimentos e comover a alma; é uma arte puramente espiritual e subjetiva27. Exatamente devido estas características é que a música mostra-se capaz de acessar o paciente na sua totalidade, tornando a assistência mais humanizada e centrada no idivíduo.

CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por meio da análise dos artigos selecionados para este estudo foi possível identificar que há escassez na literatura sobre a temática humanização do atendimento ao idoso na ultima década, que há destaque na participação de enfermeiros nas publicações acerca da problemática e que se faz necessária maior exploração do fenômeno sob distintas óticas, especialmente àquelas que possibilitam a verificação da eficácia de ações e estratégias para a prática humanística do cuidado. E, foram apontadas como estratégias/recomendações para o cuidado humanizado ao idoso em situação de hospitalização as estratégias de comunicação, o trabalho em equipe, o embasamento bioético das ações de cuidado e a musicoterapia.

Nota-se na atualidade o crescimento da população idosa e a transição demográfica alterando o cenário social no Brasil, caracterizado pelo envelhecimento populacional. À medida que o ser humano envelhece, aumenta a expectativa de vida da população, mas decresce a qualidade frente às condições crônicas de adoecimento, uma vez que requerem maior frequência de permanência nos hospitais. Ou seja, os idosos tendem a sofrer recorrentes internações, que podem potencializar situações de fragilidade física e emocional.

O reestabelecimento da condição de saúde do idoso no hospital tende a ser baseada nos aspectos de normas e rotinas do sistema, avanços tecnológicos e tecnicismo. Contudo, se faz necessário mais do que isso; deve-se exercitar uma prática de cuidado de enfermagem que contribuía para o atendimento integral ao ser humano, e não à sua doença. Trazer à tona fundamentos humanísticos no atendimento em saúde ao idoso hospitalizado é respeitá-lo em seu processo de senescência e adoecimento. A abordagem individualizada e humanística proporciona não apenas qualidade na assistência, mas também conforto, confiança e bem-estar ao idoso durante a hospitalização.

Embora este estudo tenha limitações, dentre as quais a restrição à busca exclusivamente eletrônica de artigos, sua realização evidenciou a necessidade de aprofundar o conhecimento na temática. Recomenda-se a realização de pesquisas futuras que investiguem a eficácia de ferramentas e estratégias concretas para a humanização do atendimento ao idoso nos hospitais.

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