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Terapias alternativas e complementares na assistência à parturiente: frequência de uso e fatores associados.

Complementary and alternative therapies in the care of pregnant women: frequency of use and associated factors.
  • * Catarina Rodrigues da Silva
  • ** Rosa Aurea Quintella Fernandes
  • *** Karine Azevedo São Leão Ferreira

RESUMO

RESUMO:Trata-se de estudo exploratório transversal com abordagem quantitativa realizado em maternidades públicas e privadas situadas em municípios do Vale do Paraíba Paulista. O objetivo foi identificar a frequencia do uso de terapias alternativas e complementares (TACs) por enfermeiros na assistência às parturientes e os fatores a ele associados. A coleta dos dados foi realizada no período de junho a dezembro de 2010. A amostra foi composta por 41 enfermeiros que prestavam assistência à mulheres em trabalho de parto. A frequência de uso das TACs foi referido por 39,02% dos entrevistados. Segundo as analises univariadas os fatores associados ao uso das TACs foram: ter formação em obstetrícia, cargo que o enfermeiro exercia, número de partos por plantão, uso de TAC na instituição, momento da aquisição do conhecimento sobre TAC, aceitação da parturiente, número de cesáreas e número de partos/mês. Concluiu-se que as TACS são pouco utilizadas na prática assistencial nesta região e, que há necessidade do desenvolvimento de estratégias para divulgação de seus benefícios de modo a incentivar sua utilização.

Descritores: Terapias Alternativas e Complementares, Trabalho de Parto, Enfermeiros.


SUMMARY - This was a cross-sectional exploratory study with a quantitative approach performed in public and private hospitals located in municipalities of Vale do Paraiba Paulista. The objective was to identify the frequency of use of complementary and alternative therapies (TACs) by nurses in the care of pregnant women and the factors associated with it. Data collection was conducted from June to December 2010. The sample consisted of 41 nurses who provided care to women in labor. The frequency of TACs use was reported by 39.02%. Of the respondents. According to univariate analysis factors associated with use were: having training in obstetrics / midwives, utilizing charge nurses, number of deliveries per shift, use of TAC in the institution, the acquisition of the knowledge of TAC, acceptance of women in labor, the number of cesareans and number of births / month. It was concluded that the TACS are little used in healthcare practice in this region and that there is a need to develop strategies for disseminating their benefits in order to encourage their use.

Key-words: Complementary and alternative medicine; Labor Obstetric; Nurses.

INTRODUÇÃO

Algumas terapias farmacológicas e não-farmacológicas vêm sendo utilizadas para o controle da dor, ansiedade e outros sintomas manifestados pela mulher durante o trabalho de parto. As intervenções farmacológicas embora sejam efetivas no controle da dor, interferem na progressão fisiológica do trabalho de parto. Além disto, os efeitos adversos destes fármacos sobre o feto e a mãe, em longo prazo, ainda não estão bem definidos.1 Para o controle da ansiedade e demais sintomas, geralmente não são empregadas medidas farmacológicas específicas.

Entre os tratamentos não-farmacológicos para controle dos sintomas apresentados durante a gestação e parto, incluem-se as terapias alternativas e complementares (TACs) que vêm sendo cada vez mais usadas. Não há uma definição consensual em relação ao conceito de TAC, sendo estas também denominadas de “medicina complementar”, “terapias complementares”, “medicina alternativa” entre outros termos. Em 2002, a Biblioteca Nacional de Medicina (National Library of Medicine) incluiu o descritor (Medical Subject Headings – MeSH) Complementary Therapies e o definiu como sendo “práticas terapêuticas que não são consideradas como parte integrante da prática médica convencional alopática.

Segundo estudo realizado na Alemanha2 que avaliou 409.413 partos, as TACs foram utilizadas em apenas 8,5% dos partos, sendo que 3,7% usaram acupuntura e 4,8% outras TACs. Em estudo realizado com enfermeiras obstetras norte-americanas as mais usadas incluíam preparações a base de ervas, terapias biológicas (ex.: aromaterapia, vitaminas, óleos, etc.), terapias manuais (ex.: acupuntura, acupressão, massagem, Reiki, hidroterapia, etc.), aplicações bioeletromagnéticas e intervenções mente-corpo (ex.: biofeedback, musicoterapia, yoga, oração, etc.).3 No Brasil, pela experiência/prática clínica, observa-se que em algumas maternidades também são utilizados: bola suíça ou do nascimento, “cavalinho pélvico” e exercícios de agachamento. Entretanto, a efetividade destas intervenções ainda não está plenamente estabelecida.

As TACs embora disponíveis em diferentes modalidades, ainda não tiveram sua efetividade confirmada no controle dos sintomas do trabalho de parto por ensaios clínicos controlados e randomizados desenvolvidos com parturientes. Contudo, o uso das TACs é aparentemente vantajoso em relação ao das terapias farmacológicas, pois tem menor custo4, facilita o estabelecimento do vínculo entre o enfermeiro e a mulher, favorece a autonomia dos enfermeiros, permite a inclusão do acompanhante no processo do parto, reduz o tempo do trabalho de parto e é aparentemente mais seguro para o feto do que as farmacológicas.1,5,6

O enfermeiro que presta assistência à parturiente auxilia no esclarecimento das dúvidas e anseios em relação a esse período e pode atuar efetivamente no controle dos sintomas e desconfortos associados ao trabalho de parto seja prescrevendo ou implementando as TACs, buscando assim favorecer o vínculo e melhorar a qualidade da assistência prestada, visto que há o respaldo legal para que ele possa atuar com TAC pelo Conselho Federal de Enfermagem.7

O uso de TAC provavelmente requer maior tempo e acompanhamento direto da mulher durante o trabalho de parto pelo enfermeiro. O uso das TACs em maternidades poderia contribuir para aumentar as taxas de parto normal nos serviços de saúde, visto que o emprego destas terapias não somente está associado à redução da dor e ansiedade, mas também com a redução do tempo em trabalho de parto, sem oferecer riscos para mãe-feto e interferência na progressão fisiológica do trabalho de parto.5,6,8-10

No Brasil, ainda não é conhecida a frequência e indicação do uso destas intervenções por enfermeiros durante o trabalho de parto e os fatores associados a este uso, ou seja, se tem ocorrido transferência das evidências para a prática clínica dos enfermeiros em maternidade.

As terapias alternativas e complementares têm mostrado-ser efetivas no controle dos sintomas, alívio dos desconfortos associados ao trabalho de parto e melhor evolução do parto, sendo intervenções pouco invasivas e em concordância com as práticas de parto humanizado. Deste modo, o uso destas terapias deveria ser incluído na rotina de acompanhamento dos enfermeiros durante a assistência a mulher em trabalho de parto. Entretanto, apesar da importância destas terapias, é desconhecida a frequência de seu uso por enfermeiros .O objetivo deste estudo foi identificar a frequencia do uso de terapias alternativas e complementares (TACs) por enfermeiros na assistência às parturientes e os fatores a ele associados.

MÉTODOS

Trata-se de estudo exploratório transversal, realizado em 27 municípios no Vale do Paraíba Paulista e incluiu a instituições hospitalares públicas e privadas que contavam com serviço de maternidade. A coleta dos dados aconteceu entre os meses de junho a dezembro de 2010.

A amostra foi composta por todos os enfermeiros que assistiam as mulheres durante o trabalho de parto e que aceitaram participar do estudo.

Os instrumentos para coleta de dados foram elaborados tendo como referência um estudo realizado com enfermeiros obstetras norte-americanos3 cujos objetivos se assemelham aos do presente estudo. As versões finais dos instrumentos de coleta de dados foram validadas por comitê de Especialistas em Obstetrícia, reunido durante o Exame de Qualificação desta dissertação.

Todos os aspectos éticos foram contemplados e o projeto foi aprovado pelo CEP da Universidade de Taubaté sob o número 172/10.

Os dados foram armazenados e analisados utilizando o programa SPSS (Statistical Package for the Social Science) versão 13.0. Foram realizadas análises descritivas por meio dos cálculos das frequências absoluta e relativa, das medidas de tendência central (média e mediana) e das de dispersão (desvio-padrão e erro-padrão da média), sendo posteriormente realizadas as análises inferenciais pertinentes ao estudo.

Para identificar os fatores associados ao uso das TACs foi realizada análise de regressão logística múltipla, sendo incluídas no modelo todas as variáveis que nas análises univariadas apresentaram p-valor do teste de Wald inferior a 0,20 e nenhuma casela com valor igual a zero. O programa SPSS também foi utilizado

para o cálculo das razões de probabilidade (odds ratio – OR) e intervalos de confiança de 95%, através do método de regressão logística não-condicional Stepwise forward. O ajuste do modelo foi avaliado pelo teste de Hosmer-Lemeshow. Em todas as análise foi adotado o nível de significancia de p-valor menor ou igual a 0,050.

RESULTADOS

Entre os 68 enfermeiros elegíveis para o estudo, 41 consentiram em participar e responderam ao questionário, 18 não foram abordados devido à negativa de participação da instituição e 09 enfermeiros se recusaram a participar.

As características sociodemográficas dos enfermeiros avaliados podem ser assim delineadas, a maioria era do sexo feminino (87,80%), com idade média de 34,49 anos. A religião predominante foi católica (70,73%) e o estado civil solteiro obteve o maior percentual (43,90%). A média da renda mensal individual foi de R$ 1.941,71. Dos enfermeiros questionados 46,3% não tinham filhos, sendo que 50% tinham até um filho (mediana=1).

Em relação à formação em enfermagem obstétrica, dos 41 enfermeiros, somente 31,71% referiram ter especialização, e haviam concluído em média há 5,25 anos. A maioria tinha cargo de enfermeiro supervisor geral (65,85%), e exercia funções assistenciais e gerenciais. Apenas 9,76% atuavam apenas como enfermeiros obstetras plantonistas. A maioria tinha jornada de trabalho de plantões de 12 horas intercalados com 36 horas de descanso (51,22%) e mais que 1/3 trabalhavam na instituição pesquisada em período integral ou noturno. Em relação à atuação na instituição pesquisada, os enfermeiros trabalhavam em média há 6,15 anos e referiam que nos seus plantões ocorriam em média 3,12 partos, independente da via de parto; 63,41% referiram que tinham autonomia para exercer assistência plena a parturiente nas suas instituições.

Tabela 01. Distribuição dos enfermeiros segundo uso de terapias alternativas e complementares (TACs) na assistência à mulher em trabalho de parto. Guarulhos, 2010.


Em relação ao uso das TACs, apenas 39,02% (IC95%= 24,20 a 55,51%) dos enfermeiros referiram utilizá-las no atendimento à parturiente. Vinte e cinco enfermeiros (60,98%, IC95%= 44,5 a 75,8%) referiram não utilizar as TACs. A TAC mais empregada foi à deambulação (69,29%), seguida por banho de chuveiro (65,85%) e massagem na região lombar (51,22%). Algumas terapias não foram utilizadas por nenhum enfermeiro, tais como: acupuntura, aromaterapia, banho de imersão, cavalinho pélvico, crioterapia, TENS, hipnose, injeção transcutânea de água estéril, reflexologia e Reiki. As demais terapias foram empregadas por menos que 50% dos enfermeiros.

No que se refere ao uso de TAC nas instituições pesquisadas, 56,10% dos enfermeiros referiram que as TACs eram utilizadas nas suas instituições e o enfermeiro foi apontado como o profissional que mais as utilizava (48,78%). O uso por médicos foi referido por apenas 7,32% dos enfermeiros. Verificou-se que a maioria dos enfermeiros (58,54%) não oferecia as TACs às pacientes e quando era oferecida somente 39,02% das parturientes as aceitavam.

Quanto ao respaldo legal do enfermeiro para prescrição de TAC em sua assistência, 46,34% mencionaram desconhecer a existência de respaldo para sua atuação. Os enfermeiros também foram questionados em relação à aplicação das TACs durante o próprio trabalho de parto, sendo verificado que (92,68%) não fizeram uso.

Tabela 02. Comparação da frequência de uso de TAC na assistência à parturiente, segundo características da formação profissional do enfermeiro. Guarulhos, 2010.


Observa-se na Tabela 2 que a frequência de uso de TAC foi significativamente (p=0,002) maior entre os enfermeiros com formação obstétrica comparados aos sem formação, sugerindo haver associação entre uso de TAC e formação em obstetrícia.

O tempo de formação na graduação dos enfermeiros (p= 0,387), tempo de formação em especialização em obstetrícia (anos) (p= 0, 714) e tempo de formação em outras especializações (anos) (p= 0,664) não diferiram entre os enfermeiros que empregavam ou não as TACs durante o trabalho de parto. O uso de TAC foi independente do tempo de formação da graduação, em obstetrícia ou em qualquer área de especialização da enfermagem.

Tabela 03. Comparação da frequência de uso de terapias alternativas e complementares na assistência a parturiente, segundo características do trabalho do enfermeiro na instituição. Guarulhos, 2010.


A Tabela 3 evidencia que houve diferença estatisticamente significante de frequência de uso de TACs quando comparando enfermeiros com diferentes cargos (p=0,010). A frequência de uso foi significativamente maior entre os enfermeiros que exerciam atividades exclusivamente assistenciais Não houve associação estatisticamente significante entre a jornada de trabalho (p=0,584) e o turno em que o enfermeiro trabalhava (p=0,699) com uso de TACs .

Tabela 04. Associação entre uso de terapias alternativas e complementares por enfermeiros na assistência à parturiente e características do trabalho do enfermeiro na instituição. Guarulhos, 2010.

No que se refere à autonomia para exercer atividades assistenciais no trabalho de parto, observou-se que a diferença não atingiu significância estatística ao nível de p< 0,050 (p=0,058), sendo assim, não houve associação entre ter autonomia e fazer uso de TACs.

O tempo de atuação na instituição não diferiu significativamente (p=0,716) entre os enfermeiros que usavam e os que não usavam TACs na assistência à parturiente. Parece não haver associação entre uso de TACs e tempo de atuação na instituição (Tabela 04).

Quanto ao número de partos/plantão, houve diferença estatisticamente significante (p=0,007). O número de partos foi significativamente maior nas instituições dos enfermeiros que referiam empregar TACs na assistência à mulher no trabalho de parto. Observou-se associação entre uso de TAC e número de partos por plantão nas instituições.

Houve diferença estatisticamente significante na frequência de uso de TAC na assistência a mulher em trabalho de parto entre enfermeiros que trabalhavam em instituições que utilizavam TAC e aqueles de instituições que não as empregavam (p=0,001), sugerindo assim que o posicionamento da instituição em relação ao uso de TACs poderia influenciar na decisão do enfermeiro em prescrevê-las.

Em relação ao profissional que empregava TACs na instituição, verificou-se que o uso foi mais frequente entre enfermeiros que entre médicos, segundo relato dos enfermeiros, e houve diferença estatisticamente significante em relação ao profissional que emprega TAC na assistência a parturiente, de monstrando que há associação entre ser enfermeiro e uso de TAC (p=0,003).

Quanto a aceitação das TACs pelas parturientes, houve diferença estatisticamente significante na frequência de uso pelos enfermeiros (p=0,000). Todos os que relataram empregar as TACs referiram que as pacientes as aceitavam e todos os que relataram o não uso justificaram que as pacientes não as aceitavam quando eram oferecidas as TACs, sugerindo haver associação entre aceitação das parturientes e uso de TACs por enfermeiros.

O número de partos vaginais (p=0,045) e cesáreas (p=0,003) por mês foi significativamente maior nas instituições que atuavam os enfermeiros que referiam empregar TACs na assistência ao parto, indicando haver associação entre número de partos e frequência de uso de TACs.

Os enfermeiros que tinham formação em obstetrícia apresentaram mais chance de utilizar TAC do que os que não tinham formação em obstetrícia. Quanto maior o número de cesáreas na instituição, maior era a chance de uso de TAC. A variável formação em obstetrícia, ajustada pelo treinamento formal em TAC, e o número de cesáreas/mês foram fatores associados ao uso de TAC por enfermeiros durante assistência a mulher em trabalho de parto, independente das demais características sociodemográficas e da formação, do trabalho do enfermeiro e da instituição.

DISCUSSÃO

As limitações dos achados deste estudo decorrem do fato de não ter sido questionado o tempo de atuação dos enfermeiros em obstetrícia, o que poderia ter modificado a chance de uso de TACs e por alguns enfermeiros não terem sido incluídos. Cabe, entretanto, destacar que, após extensa revisão da literatura nacional e internacional verificou-se que este foi o primeiro artigo nacional que avaliou o uso de TACs por enfermeiros durante o a assistência à mulher em trabalho de parto.

A maioria dos Enfermeiros que participou deste estudo não possuía especialização ou habilitação em enfermagem obstétrica, o que instiga algumas preocupações relacionadas à segurança do paciente e qualidade da assistência, visto que alguns cuidados seriam atribuições específicas dos enfermeiros obstetras e quando realizados por profissionais não adequadamente preparados poderia resultar em erros no exercício profissional. 11 É necessário que os enfermeiros que atuam no acompanhamento da gestação e trabalho de parto recebam formação específica em obstetrícia.

Quanto às características do trabalho dos enfermeiros, a maioria (65,85%) tinha função de supervisor geral, reforçando o perfil da maioria das instituições do Vale do Paraíba Paulista, pois muitas unidades não possuíam coordenador de unidade e/ ou enfermeiros exclusivos do Centro Obstétrico, mas somente supervisor para atuação gerencial e assistencial.

Embora no presente estudo os enfermeiros não tenham sido diretamente questionados em relação a autonomia para uso de TAC, foram questionados em relação a autonomia para atuar na assistência à mulher em trabalho de parto, o que também incluiria a prescrição das TACs. Verificou-se que 26 referiram ter autonomia, destes, 13 aplicavam TACs e 3 referiram fazer uso de TAC mesmo não tendo autonomia ou com alguma dificuldade de autonomia. Dificuldades que foram também apresentadas em outro estudo. 12

A frequência de uso de TACs relatada pelos enfermeiros estudados no interior paulista foi inferior à relatada por europeus e norte-americanos. Entretanto, estes estudos avaliaram a frequência de uso não apenas no cuidado à mulher em trabalho de parto, mas também durante a gestação. Estudos apontam frequência de uso das TACs em obstetrícia variando de 34% a 78%, sendo encontradas frequências menores no Reino Unido13 e maiores nos Estados Unidos, variando de 78%3 a 93,9%. 3,14

Os participantes apontaram o enfermeiro como o profissional que mais utilizava TAC na assistência à mulher em trabalho de parto, seguido por médicos. Não foi mencionado o uso por fisioterapeutas, profissionais de enfermagem de nível técnico ou outros membros da equipe multidisciplinar de saúde. No que se refere à oferta e procura, verificou-se que a maioria (60,98%) dos enfermeiros não oferecia as TACs às pacientes e relataram que quando os enfermeiros ofereciam as TACs somente 39,02% das parturientes as aceitavam.

No que se refere às práticas assistenciais, há que se considerar que os profissionais de saúde necessitam de respaldo legal pelo conselho federal de enfermagem para atuar em sua assistência. A resolução COFEN 197/977 estabelece e reconhece as Terapias Alternativas como especialidade e/ou qualificação do profissional de Enfermagem. No entanto, quanto ao respaldo legal do enfermeiro para prescrição de TAC em sua assistência, 46,34% mencionaram desconhecer a existência de respaldo para sua atuação. Somente 36,59% tinham conhecimento do respaldo legal para o enfermeiro fazer uso das TACs. Nuñez e Ciosak15 em seu estudo sobre o saber e o fazer das enfermeiras com TAC também identificaram que entre 18 enfermeiras de seu estudo, 14 (77,8%) não conheciam o respaldo legal.

Os fatores que tiveram associação com o uso de TAC durante a assistência a mulher em trabalho de parto na análise univariada foram: formação obstétrica, cargo que exercia, número de partos por plantão, momento da aquisição do conhecimento (na especialização em obstetrícia), uso de TAC na instituição, profissional que empregava, aceitação das TACs pela parturiente, frequência de aceitação da parturiente, número de partos cesárea/mês e número de partos vaginal/mês na instituição.

A formação obstétrica prediz o uso, pois o enfermeiro especialista nesta área tem em sua formação complementar subsídios para melhor atender a esta população. 16 Assim como o cargo que exercia foi associado, apontando que o enfermeiro obstetra plantonista tinha maior chance de uso em relação aos outros cargos.

O emprego de TAC na instituição foi preditor de uso de TAC pelo enfermeiro, bem como o profissional que empregava, sendo apontado o enfermeiro como profissional que mais empregava. Akiyama 200417 pesquisou o uso de TAC na medicina e o grupo de recusa em participar de sua pesquisa incluía área de tocoginecologia. Identificou-se que 52% dos médicos de várias especialidades (n=365) endossavam alguma TAC. Considerando que médicos obstetras recusaram-se a participar do estudo de Akiyama17 e neste estudo o médico foi pouco apontado como profissional que emprega TAC, e mesmo considerando que o enfermeiro obstetra seja o profissional que permanece mais tempo ao lado da parturiente, há que se conscientizar os médicos sobre os benefícios do uso de TAC na assistência a mulher em trabalho de parto.

A aceitação e frequência de aceitação pela parturiente estiveram associadas com o uso de TAC por enfermeiros. Gentil e colaboradores18 comentaram que fatores culturais e crenças, assim como o conhecimento dos benefícios do tratamento poderiam influenciar o uso de TACs por mães em seus filhos, fatores estes que poderiam também influenciar na aceitação do uso de TACs pelas parturientes.

O uso de TAC por enfermeiros na assistência a mulher em trabalho de parto foi independente das características sociodemográficas, tempo de formação da graduação, em obstetrícia ou em quaisquer áreas de especialização da enfermagem. A partir de análise múltipla verificou-se que apenas a variável formação em obstetrícia, ajustada pelo treinamento formal em TAC, e o número de cesáreas/mês estavam significativamente associadas do uso de TAC por enfermeiros durante a assistência a mulher em trabalho de parto, independente das demais características sociodemográficas e da formação, do trabalho e da instituição.

Ao verificar que o efeito da formação em obstetrícia sobre o uso de TAC foi ajustada pelo treinamento formal em TAC, ficou a questão: será que valeria a pena investir em educação dos enfermeiros para uso de TACs, visto que o treinamento formal isoladamente não teve associação? Ensaio clínico avaliando programas de curta duração de treinamento de médicos cardiologistas em TAC mostrou bons resultados. Foi possível aumentar o conhecimento médico e mudar as atitudes em relação a medicina integrativa através de intervenção de oito horas usando abordagens de ensino experimental e mudança conceitual.19 Embora não tenham sido identificados estudos avaliando a efetividade de treinamento em TACs sobre o uso destas terapias em obstetrícia, a partir dos resultados do estudo citado acima, poder-se-ia supor que a educação dos enfermeiros obstetras poderia melhorar o uso de TAC em obstetrícia.

A educação dos profissionais de saúde, em especial enfermeiros, e dos pacientes (gestantes) poderiam ser uma das estratégias efetivas para estimular e aumentar o uso das TACs durante a gestação e trabalho de parto. Este posicionamento é defendido por diversos autores, após realizarem estudo20 com médicos, residentes de medicina e demais profissionais de saúde. Embora não tenham sido identificados estudos específicos com enfermeiros, acredita-se que estas intervenções também poderiam contribuir para o uso de TACs por enfermeiros.

Os benefícios/vantagens do treinamento dos enfermeiros obstétricos ou que atuam em obstetrícia não se restringiriam apenas ao acompanhamento do trabalho de parto, mas também envolveria a gestação. Segundo estudo de revisão, o uso das TACs em obstetrícia é amplo e já há diversas evidências da efetividade em diferentes momentos, tais como: o uso de acupuntura e gengibre para controle de náuseas e vômitos nos primeiros meses da gestação; a injeção de água estéril para dor durante o trabalho de parto; a massagem para prevenir trauma perineal durante o parto; entre outros.21 O enfermeiro treinado certamente também terá maior sensibilidade e preparo para aceitar o uso das TACs pelas gestantes e parturientes e saberá aconselhá-las da melhor forma possível.22

As TACs vão ao encontro das condutas preconizadas no parto humanizado, por isso o uso deveria ser estimulado. Considerando os resultados do presente estudo, o oferecimento de formação específica em obstetrícia para enfermeiros que atuam na assistência a mulher em trabalho de parto poderia ser também uma estratégia. A atuação de especialistas em situações clínicas específicas tais como pediatria e obstetrícia, tem mostrado ser mais benéfica e segura para os pacientes quando comparado a atuação de profissionais generalistas.23

Além destes aspectos, estudo qualitativo24 conduzido com enfermeiras obstétricas australianas verificou que elas empregavam TAC devido aos seguintes motivos: aumentava o senso de autonomia do profissional em relação aos médicos; ia ao encontro de um cuidado focado na mulher; porque a medicina convencional tinha efeitos-colaterais; considerava como intervenções “naturais” e menos invasivas; e promovia a participação da paciente/parturiente no cuidado, a empoderando. Embora não tenham sido identificados estudos nacionais avaliando estes aspectos, talvez eles também influenciem a decisão dos enfermeiros brasileiros em utilizar TACs.

O uso das TACs também estava relacionado às barreiras dos profissionais e pacientes. Em estudo epidemiológico de base populacional conduzido nos Estados Unidos25, as principais barreiras relacionadas ao uso das TACs incluíram: ser do sexo masculino, ser saudável, não ter apoio do médico ou profissional de saúde para o uso, crença de que as TACs seriam intervenções inefetivas ou pouco efetivas (tratamentos inferiores) e falta de conhecimento significativo sobre as TACs. Verifica-se que novamente a educação sobre as TACs, poderia ser estratégia efetiva para aumentar o uso destas terapias, abordando evidências de efetividade e mecanismos e indicações, tanto para público leigo como talvez para profissionais de saúde. Embora este estudo citado não tenha sido conduzido em obstetrícia, os seus resultados auxiliam a compreender ou na elaboração de hipótese em relação à obstetrícia especificamente.

Embora nem todas as terapias alternativas e complementares tenham sua efetividade e segurança atestadas, sabe-se que há algum nível de evidência que suportam o uso na prática clínica em maternidades. Os enfermeiros demonstraram ter algum conhecimento sobre a temática, porém nem todos incorporavam TACs em seu plano de assistência. Faltou conhecimento dos aspectos legais para o uso de TAC por enfermeiros.

O movimento pela humanização do parto e nascimento incentiva que a parturiente tenha plena participação e seja protagonista neste momento tão especial em sua vida. O enfermeiro que atua na assistência a mulher em trabalho de parto deveria ser coadjuvante, promovendo conforto, bem estar e segurança em sua atuação, devendo assim implementar o uso de terapias alternativas e complementares.

É importante o conhecimento destas informações, para que possam ser propostos programas educativos e de estímulo ao uso das TACs por enfermeiros, o que poderá contribuir para desenvolver sua autonomia na atuação junto às parturientes, promover o conforto, o aumento da chance de evolução para parto vaginal e melhor controle de sintomas.

CONCLUSÕES

Diante dos objetivos propostos neste estudo e frente aos resultados obtidos, pode-se concluir que 39,02% dos enfermeiros empregavam alguma terapia alternativa e complementar em sua prática clínica. As TACS são pouco utilizadas na prática assistencial à mulher em trabalho de parto nesta região e, há necessidade do desenvolvimento de estratégias para divulgação de seus benefícios de modo a incentivar sua utilização.

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