Revista  Enfermagem Atual

Nosso contato
enfermagematual2017@gmail.com
+55 (21) 2259-6232
Nosso endereço
[ISSN 1519-339X ] Impressa
Rua México, 164, SALA 62
Centro | RJ - 20031-143

Reflexão sobre violência e assistência ao trabalho de parto fundamentada na teoria de Roy

Reflection on violence and assistance to labor based on theory of Roy
  • * Michelle Gonçalves da Silva
  • ** Júnia Aparecida Laia da Mata Fujita
  • *** Clara Fróes de Oliveira Sanfelice
  • **** Lívia Shélida Pinheiro Rodrigues
  • ***** Antonieta Keiko Kakuda Shimo

RESUMO

RESUMO: Objetivou-se refletir sobre a assistência da enfermagem obstétrica destinada à parturiente sob a luz da Teoria de Adaptação de Sister Callista Roy. Trata-se de um estudo reflexivo, no qual os resultados foram extraídos por meio de leituras de fontes secundárias e integração de conceitos sobre a Teoria de Adaptação de Roy com seus quatro modos adaptativos (fisiológico, autoconceito, função de papel e interdependência), modelos de atenção ao parto e violência obstétrica. Conclui-se que é possível aplicar as bases teórico-filosóficas dessa Teoria aos pressupostos da assistência de Enfermagem Obstétrica destinada às parturientes. O estudo permitiu a apropriação de conceitos fundamentais para o cotidiano da enfermagem, levando a reflexões acerca da prática obstétrica atual.

Descritores: Teoria de enfermagem; Violência contra a mulher; Parto humanizado; Enfermagem obstétrica.


SUMMARY - This study aimed to reflect on the care of midwifery intended to laboring women in the light of the Adaptation Theory of Sister Callista Roy. This is a reflective study in which the results were obtained by reading secondary sources and integration of concepts about the Roy Adaptation Theory with its four adaptive modes (physiological, self-concept, role function and interdependence), models delivery care and obstetric violence. We conclude that it is possible to apply the theoretical and philosophical foundations of this theory to the assumptions of Obstetric assistance aimed at pregnant women. The study allowed the appropriation of concepts fundamental to the practice of nursing, leading to reflections on current obstetric practice.

Descriptors: Nursing Theory; Violence Against Women; Humanizing Delivery; Obstetrical Nursing.

INTRODUÇÃO

A maternidade é percebida por algumas mulheres como o início de um novo ciclo, um marco diferencial, que consagra a abrangência do papel feminino, embora algumas destas possam associar o parto à dor intensa. Parir é um evento único na vida da mulher e cada uma vivencia este processo à sua maneira, sofrendo influência de diversos fatores como: crenças, valores, cultura, experiências anteriores, aspectos emocionais e psicológicos1.

O trabalho de parto é caracterizado por alterações mecânicas e hormonais que promovem contrações uterinas, resultando na dilatação do colo uterino e descida da apresentação fetal, pode sofrer influências de fatores emocionais e psíquicos, da história da parturiente, da cultura e dos fatores ambientais2.

A assistência dispensada à mulher no trabalho de parto é significativa, pois repercute na forma como ela vivenciará este processo, refletindo de maneira positiva ou negativa na experiência subjetiva de parir3-4.

Uma pesquisa denominada “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, revelou que uma em cada quatro mulheres brasileiras sofrem violência no parto. O conceito internacional de violência no parto define qualquer ato ou intervenção direcionados à parturiente ou ao seu bebê, praticado sem o consentimento explícito e informado da mulher e/ou em desrespeito à sua autonomia, integridade física e mental, aos seus sentimentos, opções e preferências5.

Para que a parturiente seja assistida adequadamente neste momento peculiar de sua vida cabe à enfermagem obstétrica criar e empregar conhecimentos sistematizados direcionados para a necessidade individual, utilizando-se de instrumentos básicos que preparam o enfermeiro para o desenvolvimento de um cuidado holístico. Dentre estes instrumentos destacam-se os princípios científicos. O saber específico em Enfermagem é caracterizado por um corpo de conhecimentos específicos que instrumentaliza o enfermeiro de modo a permitir o seu desempenho com independência, competência e responsabilidade 6.

Para consolidar estes princípios recorremos às Teorias de Enfermagem, cuja intenção é conceituar o processo de cuidar da Enfermagem, para evolução da profissão enquanto ciência7.

Sister Callista Roy é uma teórica de enfermagem que conceituou a Teoria da Adaptação, fundamentando-se nas crenças filosóficas, capacidades inatas, finalidade e valor do ser humano. Ela defende que os cuidados de Enfermagem têm como recipiente a pessoa, como indivíduo ou membro de um grupo, que interage com o meio ambiente interno e externo, recebendo estímulos e reagindo com um processo de adaptação8.

O Modelo Adaptativo de Roy descreve a saúde como um estado de adaptação que é manifestado na energia liberada para lidar com o estímulo focal, contextual e residual, sendo um processo de promoção à integridade, no qual a sua operacionalização indica comportamentos que atinjam as metas de sobrevivência, crescimento, reprodução e controle da pessoa. Esta promoção de reações adaptativas constitui a meta da enfermagem, na qual a pessoa é tratada como um sistema holístico e adaptativo9.

A entrada no sistema refere-se às respostas comportamentais da pessoa aos estímulos internos e externos por meio de mecanismos de enfrentamento ou controle, regulados pelos subsistemas cognitivo e regulador do sistema nervoso autônomo tendo a responsabilidade de organizar uma ação reflexa que prepara o indivíduo para responder e se adaptar ao meio, usando suas funções neurais, endócrinas e perceptivo/psicomotora10. Assim foram criadas quatro categorias, definidas como modos adaptativos (fisiológico, autoconceito, função de papel e interdependência), a fim de investigar os comportamentos resultantes dos mecanismos reguladores e cognatos8.

O interesse em desenvolver este estudo surgiu pela inquietude das pesquisadoras sobre a possível adaptação do biopsicossocial feminino à violência sofrida durante o trabalho de parto e a importância de se adotar uma Teoria de Enfermagem para fundamentar as práticas diárias, visando delimitar as reais atribuições da Enfermagem Obstétrica e valorizar a profissão.

Diante do exposto, objetivou-se no presente trabalho refletir sobre a assistência da enfermagem obstétrica destinada à parturiente sob a luz da Teoria de Adaptação de Sister Callista Roy

Esses estudos demonstram a necessidade de atenção especial para com esses trabalhadores; assim este trabalho tem por objetivos identificar as características sociodemográficas e de trabalho, a morbidade referida por eles e os medicamentos que utilizam.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo reflexivo sobre a assistência de Enfermagem Obstétrica dispensada à parturiente fundamentada pela Teoria de Adaptação de Roy. É concebido na literatura que a parturiente adapta seu organismo frente a intensas modificações biopsicossociais durante o trabalho de parto8.

A atual assistência da enfermagem obstétrica busca a humanização para o resgate de um trabalho de parto e parto fisiológico (respeitando as adaptações do organismo) e menos traumático para a mulher e seu bebê(11).

Foram realizadas leituras de fontes secundárias e integração de conceitos sobre a Teoria de Adaptação de Roy com seus quatro modos adaptativos (fisiológico, autoconceito, função de papel e interdependência), modelos de atenção ao parto e violência obstétrica que contribuíram na elaboração desta reflexão(1-2,8-9).

DISCUSSÃO

Cada modo adaptativo será discutido conforme a prática de enfermagem obstétrica:

1- Modo adaptativo fisiológico: norteado por mecanismos reguladores definidos como resposta física aos estímulos ambientais, conforme mostra a tabela 1:

Tabela 1- Associação de estímulos ambientais com a assistência de enfermagem obstétrica durante o trabalho de parto. São Paulo, 2013.

2- Modo adaptativo de autoconceito: relaciona-se aos aspectos psicológicos, morais e espirituais do sistema humano. A necessidade básica subjacente a este modo é a integridade psíquica e espiritual. Neste modo em especial pode-se modificar o modelo de atenção ao parto violento atual, pois a parturiente necessita ser compreendida como protagonista nos seus processos fisiológicos, evitando uma assistência de forma agressiva, não empática, zombeteira e de comandos de inferioridade, assim como procedimentos desnecessários, dolorosos e humilhantes como: lavagem intestinal, tricotomia de pelos pubianos, exposição corporal, submissão ao toque vaginal coletivo e métodos rotineiros para acelerar o trabalho de parto como a administração hormonal sintética, amniotomia e episiotomia sem as devidas indicações. A satisfação de ser mãe e a liberdade para parir são fatores que ajudam a mulher na transição pelo trabalho de parto e em seu papel de mãe, reforçando a importância de devolver para elas o papel central e não impositivo de cesáreas desnecessárias, permitir e incentivar a presença de um acompanhante para que a mesma se tranquilize e sinta-se mais segura2-3,9,12.

3- Modo adaptativo de função de papel: contém funções expressivas e instrumentais, podendo situar-se como papel primário, secundário e terciário, determinando posição e desempenho, os quais mantém sua integridade social. Este modo trabalha a liberdade de posições e o respeito pela cultura durante o trabalho de parto e parto, um exemplo clássico são as parturientes que sentem conforto em parir no ambiente aquático ou em outra posição que não a ginecológica (de cócoras, de quatro apoios ou de lado, por exemplo). Aqui está o grande desafio e diferencial da assistência da enfermagem, pois saber observar e respeitar as suas escolhas, as expressões verbais e não verbais de cada parturiente, resgata sua posição de protagonista, e revela para a enfermeira os medos, as expectativas e até a evolução do trabalho de parto3,9,12-13.

4- Modo adaptativo de interdependência: este modo trata do valor humano, a afeição, o amor e afirmação das relações interpessoais. Aqui está o componente do respeito e promoção do vínculo familiar que se forma com o nascimento, já que nesse momento também nasce uma mãe, um pai e uma nova família. Proporcionar medidas para consolidação deste vínculo é proporcionar uma assistência de enfermagem obstétrica de qualidade. Permitir o contato pele-a-pele com o recém-nascido, o aleitamento materno logo após o parto ou simplesmente promover o silêncio e a privacidade dessa nova família para troca de olhares, carinhos e palavras são cuidados de Enfermagem na assistência prestada e no combate à violência no parto2,8,11,14.

CONCLUSÕES

Ao realizar esta análise constatou-se que é possível aplicar as bases teórico-filosóficas da Teoria de Adaptação de Roy aos pressupostos da assistência de Enfermagem Obstétrica destinada às parturientes. O estudo também permitiu a apropriação de conceitos fundamentais para o cotidiano da enfermagem, levando a reflexões acerca da prática obstétrica atual, por meio de uma leitura sensível dos modos adaptativos dessa teórica.

Referências

1. Gallo RBS, Santana LS, Marcollin AC, Ferreira CHJ, Duarte A, Quintana SM. Recursos não-farmacológicos no trabalho de parto: protocolo assistencial. Femina. 2011; 39 (1): 41-8.

2. Oliveira ASS, Rodrigues DP, Guedes MVC, Felipe GF. Percepção de mulheres sobre a vivência do trabalho de parto e parto. Rev Rene. 2010; 11(n.esp): 32-41.

3. Diniz CSG, Bick D, Bastos MH, Riesco ML. Empowering women in Brazil. Lancet. 2007; 10; 370(9599):1596-8.

4. Moreira KAP, Araújo MAM, Fernandes AFC, Braga VAB, Marques JF, Queiroz MVO. O significado do cuidado ao parto na voz de quem cuida: uma perspectiva à Luz da Humanização. Cogitare Enferm. 2009; 14(4): 720-8.

5. Venturi W, Bokany V, Dias G, Alba D, Rosas W, Figueiredo N. Mulheres brasileiras e gênero nos espaços públicos e privado. Fundação Perseu Abramo e SESC [Internet]. 2010 [citado 2013 mar 21]. Disponível em: http://novo. fpabramo.org.br/sites/default/files/pesquisaintegra_0.pdf

6. Bousso RS, Poles K, Cruz DALM. Conceitos e Teorias na Enfermagem. Rev. Esc. Enferm. USP. 2014; 48(1): 141-5.

7. Alligood MR. Nursing Theorists and their work. 8ª ed. Missouri (USA): Elsevier; 2014.

8. Souza MF, Marin HF, Miyazawa NS, Arantes SL. O modelo de adaptação de Roy: proposta de aplicação em enfermagem obstétrica. Acta Paul. Enferm.1989; 2(1): 14-7.

9. Rodrigues DP, Pagliuca LMF, Silva RM. Modelo de Roy na enfermagem obstétrica: análise sob a ótica de Meleis. Rev Gaúcha Enferm. 2004; 25(2): 165-75.

10. Cavalcante LB. Características pessoais e institucionais e comportamentos de autocuidado de docentes de enfermagem segundo os modos adaptativos de Roy: estudo em instituições públicas do Estado do Rio de Janeiro [Dissertação]. Rio de Janeiro (RJ): UERJ; 2009.

11. Hodnett ED, Gates S, Hofmeyr GJ, Sakala C. Continuous support for women during childbirth. (Cochrane Review) The Cochrane Library, Issue 10. Update Software, Oxford; 2012.

12. Odent M. O renascimento do parto. 2ª ed. Florianópolis (SC): Saint Germain; 2002.

13. Riesco MLG, Oliveira SMJV, Bonadio IS, Schneck CA, Silva FMB, Diniz CSG, Lobo SF, Saito E. Centros de parto no Brasil: revisão da produção científica. Rev Esc Enferm USP 2009; 43(Esp2): 1297-302.

14. Odent M. A cientificação do amor. 2ª ed. Florianópolis (SC): Saint Germain; 2002.