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Morbidade referida pelos trabalhadores do Serviço de Higiene de um hospital público de São José dos Campos - SP*

Morbidity by workers of the Department of Hygiene of a public hospital in São José dos Campos - SP *
  • ** Arlete Silva
  • *** Gláucia Adalgisa Leite Ferreira
  • **** Renan Sallazar Ferreira Pereira
  • ***** Cecília Angelita dos Santos
  • ****** Josiane Lima de Gusmão

RESUMO

RESUMO: Este estudo teve por objetivos caracterizar as variáveis sociodemográficas e identificar a morbidade referida pelos trabalhadores do Serviço de Higiene de hospital público de São José dos Campos (SP). Trata-se de estudo descritivo, transversal, de campo, com abordagem quantitativa. A amostra foi constituída por 33 trabalhadores do Serviço de Higiene que participaram do estudo primário “Avaliação de Saúde dos Trabalhadores de um Hospital Geral de São José dos Campos-SP”. Os dados foram coletados por meio de questionários e armazenados em banco de dados no programa de computador Excel. Observou-se predomínio de mulheres, brancas, entre 40 e 50 anos, casado/amasiado, renda familiar entre 3 e 7 salários mínimos. A maioria referiu não ingerir bebida alcoólica, não fumar, consumir alimentos processados e in natura, não acrescentar sal nos alimentos prontos, e não praticar exercícios físicos. A maioria considera o seu estado de saúde bom e regular, mas apresenta queixas, sendo as mais frequentes as relacionadas ao sistema osteomuscular e conjuntivo, principalmente as dorsalgias; referiram também as doenças do aparelho circulatório, digestivo, do sistema nervoso, e doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas. São essenciais as propostas de programas que visem a prevenção de agravos, assim como a manutenção e promoção da saúde destes trabalhadores.

Descritores: Saúde do Trabalhador; Morbidade; Serviço de Limpeza; Enfermagem.


SUMMARY - This study aimed to characterize the sociodemographic variables and identify the morbidity by workers of the Department of Hygiene of the public hospital of São José dos Campos (SP). This is a descriptive, cross-sectional, study of field with a quantitative approach. The sample consisted of 33 workers who participated in the primary study “Evaluation of Workers’ Health in a General Hospital of São José do Campos - SP”. Data were collected through questionnaires and stored in the database in Excel computer program. There was a predominance of women, white, between 40 and 50 years old, married, family income between 3 a 7 living wages. The majority reported not drinking alcohol, not smoking, consuming processed foods and in nature, not adding salt in prepared foods, and not physical exercise. Most consider their state health of good and regular, but has complaints, the most common being related to the musculoskeletal system, especially back pain; also mentioned diseases circulatory, digestive, nervous, and endocrine, nutritional and metabolic diseases. Are essential proposals for programs for the prevention of injuries, as well as the maintenance and promotion of health of these workers.

Key words: Occupational Health; Morbidity; Housekeeping; Nursing.

INTRODUÇÃO

O trabalho exerce um papel fundamental na vida das pessoas, seja satisfazendo as suas necessidades de subsistência ou propiciando melhores condições de vida. Entretanto, pode também levar ao desgaste do trabalhador, a ser analisado sob três dimensões: os acidentes de trabalho, o tempo de vida de trabalho útil e o perfil de morbidade1.

O acidente é o dano mais notório e abrupto entre os trabalhadores, enquanto o tempo de vida de trabalho útil possibilita formular hipóteses sobre os tipos de desgaste que impedem o trabalhador de continuar trabalhando em uma determinada atividade. Por sua vez, o perfil de morbidade pode ser construído por meio da história clínica do trabalhador, obtida em entrevista individual ou informações já existentes, sendo uma possível fonte, os registros de exames médicos periódicos1.

Os estudos sobre morbidade referida têm sido cada vez mais reconhecidos, uma vez que as informações obtidas dos serviços de saúde referem-se à demanda e não à comunidade, o que pode levar às distorções dos quadros de morbidade em grupos populacionais específicos. A avaliação da morbidade junto a uma determinada população possibilita descobrir o componente oculto do processo saúde doença – a morbidade percebida ou sentida2.

Estes estudos iniciaram-se na década de 20, nos países industrializados, e a partir da década de 50 nos países em desenvolvimento. Eles se caracterizam como levantamentos por inquéritos populacionais para a descrição da morbidade sentida ou expressa pelas pessoas, apresentando características próprias como a coleta de dados por pessoal não especializado, ausência do exame clínico na entrevista e identificação da morbidade através dos relatos da população e não por meio de critérios clínicos, o que os diferenciam de outros estudos de morbidade3.

A utilização de dados de morbidade e mortalidade de diferentes fontes representa uma das estratégias possíveis para avaliar a situação de saúde dos trabalhadores.

Merecem destaque os trabalhadores da área da saúde por representarem uma importante força de trabalho, que enfrentam condições inadequadas e insatisfatórias em seus ambientes de trabalho, principalmente o hospitalar, expondo-se constantemente aos riscos ocupacionais, que podem causar danos à sua saúde e levá-los ao adoecimento.

Um estudo de revisão bibliográfica observou que as queixas de saúde mais freqüentes entre um grupo específico, os trabalhadores de enfermagem, estão relacionadas às doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo, especialmente os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT) e dorsalgia, e aos transtornos mentais e comportamentais, principalmente o estresse4.

A exposição dos trabalhadores pode se dar pelo contato com portadores de doenças infecto-contagiosas, a necessidade da movimentação de pacientes, de equipamentos pesados, do convívio com a dor e a morte, entre outros.

No entanto, deve-se considerar os demais trabalhadores que não tem contato direto com pacientes mas estão igualmente expostos a esses riscos; são aqueles que atuam nos serviços de apoio técnico e logístico, tais como lavanderia, farmácia, manutenção, armazenamento e dispensação de materiais e equipamentos e zeladoria.

Uma pesquisa desenvolvida em um Hospital Universitário da região sul do Brasil, verificou que dentre os trabalhadores com maior risco de acidentes de trabalho por materiais perfurantes, desprezados em lixos de maneira inadequada ou em outros locais impróprios, constava o pessoal responsável pela limpeza5. Outro estudo realizado em 2000 nos centros cirúrgicos dos hospitais brasileiros observou que dentre os trabalhadores dos Serviços de Zeladoria, a categoria que mais se acidentava era o auxiliar de limpeza6.

Em um estudo desenvolvido em um Hospital Universitário do interior do Estado de São Paulo, com 50 trabalhadores terceirizados do serviço de limpeza, 36% deles referiram problemas de saúde, como doenças respiratórias, cardiovasculares, musculoesqueléticas, anemia, infecção urinária, diabetes, dentre outras7.

Esses estudos demonstram a necessidade de atenção especial para com esses trabalhadores; assim este trabalho tem por objetivos identificar as características sociodemográficas e de trabalho, a morbidade referida por eles e os medicamentos que utilizam.

MÉTODOS

Estudo descritivo, transversal, de campo, com abordagem quantitativa realizado com 33 trabalhadores do Serviço de Higiene que participaram do estudo primário denominado “Avaliação de Saúde dos Trabalhadores de um Hospital Geral de São José dos Campos – SP”8, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Taubaté (UNITAU) sob Parecer nº 556/11, coordenado por pesquisadores da Universidade Guarulhos e que teve como objetivo geral avaliar as condições de saúde dos profissionais que trabalham num hospital público de grande porte, localizado no município de São José dos Campos - SP. Este hospital foi inaugurado em 1978, conta com 307 leitos e 1.795 trabalhadores de todas as categorias profissionais. É vinculado à Secretaria Municipal de Saúde de São José dos Campos e gerenciado pela SPDM desde 2006; reconhecido como Hospital Amigo da Criança, recebeu o Prêmio COREN-SP de “Gestão com Qualidade Dimensão Hospitalar Edição 2011/2012

Os trabalhadores foram avaliados por meio de questionários com dados referentes às características sociodemográficas e profissionais, estilo de vida e morbidade referida. As variáveis de interesse analisadas foram:

A) Dados pessoais: data de nascimento, sexo, etnia, estado civil, escolaridade, nacionalidade, cidade onde mora;

B) Dados profissionais: tempo de serviço na instituição, local de trabalho, ocupação/cargo, renda familiar, horas de trabalho diário na instituição, outras atividades fora do trabalho e trabalho aos fins de semana;

C) Estilo de vida: dados sobre ingestão de bebida alcoólica, tabagismo, prática de exercício físico e hábitos alimentares;

D) Morbidade referida: dados sobre as queixas de saúde e uso de medicamentos.

Os dados foram armazenados em banco de dados criado em planilha no programa de computador Excel, analisados quantitativamente e apresentados em forma de tabelas. Foi realizada análise descritiva que utilizou medidas de tendência central (média, máxima e mínima) e medida de dispersão (desvio padrão) para as variáveis contínuas e número absoluto e frequência relativa para as variáveis categóricas.

RESULTADOS

A maioria da amostra estudada é do sexo feminino (n= 29; 87,88%), de etnia branca (n=19; 57,58%), casada/ amasiada (n= 18; 58,06) e mora na mesma cidade em que trabalha (n= 31; 96,88%); houve predominância da idade entre 40 e 50 anos (n=11; 35,48%), sendo a mínima 20 e a máxima 58 anos, com média de 40,06 (dp 9,66); 22 (75,86%) trabalhadores referiram 10 a 20 anos de estudo, tendo completado o ensino médio (n=27; 96,43%). A maioria (n= 17; 51,52%) é natural do Estado de São Paulo e os demais (n=16; 48,48%) são naturais de outros estados como Alagoas, Bahia, Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro, Paraná e Pernambuco.

Em relação aos dados profissionais, 27 (84,38%) funcionários trabalham nesta instituição há até 5 anos, sendo que o tempo mínimo foi de 7 meses e o máximo 7 anos, com média de 3,07 anos (dp 1,56); 8 (40,00%) estão lotados na Hotelaria, 7 (35,00%) na Higienização e os demais na Governança, Rouparia e Lavanderia. A renda familiar declarada pela maioria dos trabalhadores (n=17; 51,52%) foi de 3 a 7 salários mínimos, observando-se média de 3,12 (dp 1,66); o valor do salário mínimo vigente em 2012 era de R$ 622,00.

Apenas 2 (6,06%) trabalhadores declararam ter outro emprego, e a maioria (n=25; 78,12%) trabalha nos finais de semana, em regime de plantão 12x36h e considera o seu trabalho pesado (n=19; 57,57%).

Quanto ao estilo de vida, pode-se observar que a maioria dos trabalhadores não tem o hábito de ingerir bebida alcoólica (n=23; 69,70%), não fuma (n=26; 78,79%), costuma consumir tipos de alimentos processados e naturais (n=21; 65,63%), prefere o tempero natural (n=24; 75,00%) ao industrializado e não acrescenta sal nos alimentos já prontos (n=30; 90,91%), hábitos esses considerados saudáveis. No entanto, a prática de atividades físicas é realizada apenas por 11 (36,67%) trabalhadores, sendo a caminhada a mais frequente, numa frequência de 1 a 3 vezes por semana.

MORBIDADE REFERIDA E O USO DE MEDICAMENTOS

Embora 55,00% dos trabalhadores do Serviço de Higiene considerem o seu estado de saúde bom e 33,00% regular, 18 (54,54%) referiram alguma queixa de saúde.

As queixas de saúde apresentadas pelos trabalhadores foram agrupadas segundo a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID109 e estão apresentadas na TABELA 1.

TABELA 1. Distribuição dos trabalhadores do Serviço de Higiene segundo a morbidade referida, conforme a CID109. Guarulhos, 2013.

Os 18 (54,54%) trabalhadores do Serviço de Higiene apresentaram 30 queixas de saúde.

A morbidade referida mais frequentemente foi relacionada ao sistema osteomuscular e tecido conjuntivo (n=19; 63,33%) principalmente as dorsalgias, seguida das doenças do aparelho circulatório (n=6; 20,00%), doenças do aparelho digestivo e do sistema nervoso com igual percentual (n=2; 6,67) e doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas (n=1; 3,33%).

Quanto ao uso de medicamentos, 8 (42,00%) trabalhadores referiram usar, os quais foram agrupados de acordo com a classe farmacológica10 e estão apresentados na TABELA 2.

TABELA 2. Distribuição dos medicamentos utilizados pelos trabalhadores do Serviço de Higiene. Guarulhos, 2013.

Foram citados 16 medicamentos, sendo os anti-hipertensivos os mais frequentes (50,00%), seguido dos anti-inflamatórios (18,75%); todos os trabalhadores referiram tomar a medicação com prescrição médica.

DISCUSSÃO

Os dados sobre as características sociodemográficas dos trabalhadores estudados mostraram a predomínio de mulheres, com idade média de 40 anos, ou seja, um grupo que, além do trabalho remunerado, acumula as atividades domésticas, dados semelhantes aos encontrados por Andrade e Monteiro7.

Quanto a ter um segundo emprego, o resultado observado no presente estudo difere da literatura encontrada, no qual a maioria exerce outra atividade remunerada7.

Percebe-se que possuem hábitos saudáveis de vida no que se refere a alimentação, bebida e tabagismo, mas não em relação a prática de atividades físicas. O sedentarismo é bastante comum na população e, de modo geral, contribui para o aumento dos fatores de risco que podem contribuir no desenvolvimento de hipertensão, infarto do miocárdio, resistência insulínica e diabetes. Pesquisa nacional realizada com o intuito de apresentar os resultados da prática de atividade física avaliou 292.553 brasileiros com idade a partir dos 14 anos e mostrou que 71,8% não praticavam atividade física 11.

O predomínio de doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo, especialmente as dores na coluna, e de doenças do aparelho circulatório, especialmente a hipertensão, também foi observado no grupo de trabalhadores do Serviço de Higiene e Limpeza de um Hospital Universitário da cidade de Campinas –SP7.

As afecções musculoesqueléticas ocupam os primeiros lugares nas estatísticas de morbidade em todos os países, quer sob a forma de acidentes ou de doença12.

A ocorrência de dorsalgias representa um risco para os trabalhadores do Serviço de Higiene, pois esses profissionais são suscetíveis a problemas na coluna vertebral, devido aos movimentos repetitivos, a postura e peso que estes profissionais enfrentam no seu dia a dia de trabalho.

A dor lombar tem como causas intrínsecas as condições congênitas, degenerativas, inflamatórias, infecciosas, tumorais e mecânico-posturais. “Cita-se também tarefas onde há vibração em todo o corpo, como as ações de empurrar, puxar, agachamento e torção, ou levantamento repetitivo de objetos pesados, principalmente quando as cargas ultrapassam a força do trabalhador”13.

A dor na coluna lombar, é um dos “sintomas mais comuns das disfunções da coluna vertebral, que acomete ambos os sexos, podendo variar de uma dor aguda, se durar menos de quatro semanas; subaguda, com duração de até 12 semanas; e crônica, se persistir por mais de 12 semanas”14.

Dentre as doenças do aparelho circulatório, a Hipertensão essencial primária foi referida por 3 trabalhadores.

A hipertensão arterial é uma das doenças com maior prevalência atualmente, atingindo 30% da população mundial; no Brasil essa prevalência varia de 22,3% a 43,9%, de acordo com inquéritos populacionais realizados nos últimos 20 anos em algumas cidades brasileiras; tem como principais causas a hereditariedade, a obesidade, o sedentarismo, o alcoolismo, o estresse, a alimentação desregulada e o fumo15.

Queixas de gastrite e enxaqueca, referidas em menor percentual, também foram observadas em trabalhadores terceirizados de um hospital universitário15.

Apesar das doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo terem sido as mais referidas (19; 63,33%) observa-se que poucos trabalhadores estão utilizando medicações indicadas para essas queixas. Chama atenção ainda o fato de 8 trabalhadores fazerem uso de anti-hipertensivo e apenas 3 referirem hipertensão arterial.

CONCLUSÃO

Frente aos resultados obtidos, pode-se concluir que as principais queixas de saúde referidas pelos trabalhadores do Serviço de Higiene Hospitalar, estão relacionadas ao sistema osteomuscular e ao aparelho circulatório, com destaque para as dores na coluna vertebral e hipertensão, respectivamente. Estes trabalhadores merecem atenção quanto às atividades que realizam, as condições adequadas de trabalho, e elaboração de programas que visem a prevenção de agravos a sua saúde, assim como a manutenção e promoção da saúde.

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