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Monitoramento do aleitamento materno em puérperas de um hospital privado

Monitoring of breastfeeding in postpartum women in a private hospital
  • Erdnaxela Fernandes do Carmo Souza
  • Ana Lhonch Sabates
  • Rosa Aurea Quintella Fernandes

RESUMO

Introdução: O leite materno é fundamental para a promoção e proteção da saúde da criança, porém o desmame precoce (DP) ainda hoje, atinge altos índices. Desse modo, faz-se necessário conhecer os principais obstáculos nos diferentes segmentos da população e superá-los. Objetivo: Objetiva-se com o estudo conhecer o tempo de aleitamento materno exclusivo e as dificuldades encontradas por mulheres usuárias de um serviço de saúde particular. Método: Trata-se de estudo de coorte, com abordagem quantitativa, realizado em hospital privado, localizado na cidade de São Paulo. A amostra foi constituída por 100 mães que praticavam o AME no momento da alta hospitalar e que tiveram o aleitamento monitorado, (por telefone), até 60 dias após o parto. Resultados: A média de AME foi de 53,2 dias. Ao iniciar o monitoramento no 7º dia 100% das mulheres aleitavam exclusivamente prática que declinou progressivamente chegando a 79% aos 60 dias. Dentre as dificuldades referidas durante o monitoramento destacam-se: sensibilidade/dor mamilar, dificuldades na pega, choro excessivo do bebê, gemelaridade, prótese mamária e a impressão de pouco leite. Conclusão: Os dados reforçam a necessidade de acompanhamento e intervenção adequada do profissional, para que seja restabelecida a prática do AM e a confiança da mãe na sua capacidade de aleitar.

Descritores: Aleitamento Materno; Desmame; Nutrição da Criança.


SUMMARY - Introduction: Breast milk is the most complete food for infants, and fundamental to the promotion and protection of health, however early weaning happens and reaches high levels. Thereby it is necessary to know the main obstacles and overcomes them. Objective: The objective is to study to know the duration of breastfeeding and difficulty’s during the process of breastfeeding after hospital discharge in women attending private health service. Method: This was a cohort study with a quantitative approach, performed in a large private hospital located in the city of São Paulo. The sample consisted of 100 mothers who practiced exclusive breastfeeding in the hospital discharge and had lactation monitored (by phone) within 60 days after delivery. Results: The average of duration of exclusive breastfeeding was 53.2 days. When starting on the 7th day, 100 % of women practiced, evolving with progressive decline reaching 79 % at 60 days. Among the difficulty’s reported during monitoring periods are: sensitivity / nipple pain , difficulties in the handle, excessive crying baby, twins, presence of breast implant and impression that milk dried up. Conclusion: These data support increasing the need for proper professional intervention, to be restored to the correct practice of breastfeeding and mother’s confidence in their ability to breastfeed.

Descriptors: Breastfeeding, Weaning, Child Nutrition.

INTRODUÇÃO

O leite materno (LM) é o mais completo alimento para a criança de zero a seis meses de vida que deve recebê-lo exclusivamente e, como complemento alimentar até os dois anos ou mais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) têm empreendido esforços no sentido de proteger, promover e apoiar o aleitamento materno exclusivo (AME), de modo que as mães consigam estabelecê-lo e mantê-lo1.

Entretanto, o desmame precoce (DP) acontece e, ainda hoje, atinge altos índices. São várias as causas que influenciam negativamente a prática do AME. Os principais obstáculos apontados em diferentes publicações 2,3,4,5,6 são: fatores socioeconômicos e culturais, menor idade e menor grau de escolaridade materna, primiparidade, falta de apoio familiar, trabalho fora do lar, uso de bicos e chupetas, traumas mamilares, desconhecimento da mãe sobre o aleitamento e o despreparo dos profissionais de saúde com o manejo clínico na amamentação.

São inúmeros os estudos 2,3,4,6 identificados na literatura sobre o tema, entretanto, a maioria deles foi realizado em redes públicas de atenção primária e maternidades com população, em geral, pertencente às classes menos privilegiadas. Os trabalhos desenvolvidos com mulheres atendidas em rede privada, com nível socioeconômico mais elevado, que têm a possibilidade de escolher a maternidade na qual serão atendidas e pagar planos particulares ou planos especiais de operadoras de saúde são em menor número.

Desse modo, há carência de informações sobre a prevalência, a manutenção e as dificuldades encontradas pelas mães, neste segmento da população, o que motivou o desenvolvimento deste estudo que teve como objetivos conhecer o tempo de aleitamento materno exclusivo e as dificuldades encontradas por mulheres usuárias de um serviço de saúde particular.

Método

Trata-se de estudo de coorte realizado em um hospital privado de grande porte da cidade de São Paulo, com assistência direcionada a pacientes particulares e usuários de planos de saúde. A amostra foi constituída por 100 mulheres internadas na maternidade no período de novembro de 2010 a abril de 2011. Os critérios de inclusão foram: estar no puerpério mediato; possuir telefone fixo ou celular e estar praticando o AME durante a internação.

A coleta dos dados foi realizada pela própria pesquisadora que entrevistou as mães durante a internação e depois monitorou o aleitamento materno, por telefone, no 7º, 15º, 30º, 45º e 60º dia após o parto

Os dados foram armazenados e analisados no programa SPSS (Statistical Package for the Social Sciences) versão 16.0. As análises descritivas foram realizadas visando caracterizar a amostra e incluíram o cálculo das frequências absolutas, relativas, média e desvio-padrão.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Samaritano sob o número 33|10 e as mulheres que aceitaram participar da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

A idade média das mulheres que compuseram a amostra foi de 32,8, anos com uma variação de 17 a 44 anos e seu perfil sociodemográfico pode ser assim delineado: a maioria (94,6%) é casada, 53,1% professam a religião católica, 90% exercem atividade remunerada e 70% completaram o ensino superior e 87% tiveram parto cesariano. Em relação à paridade 47% eram primíparas e 43% secundíparas. A maioria realizou o pré-natal em consultórios particulares ou em convênios e 95% referiram não ter recebido nenhuma orientação sobre AM nas consultas.

Em relação à intenção das mães em manter a amamentação dos filhos, todas elas (100%), quando questionadas sobre o tempo que pretendiam aleitar exclusivamente, afirmaram que até os seis meses. Entretanto, a média de aleitamento exclusivo foi de 53,2 dias (DP 14,2), como pode ser observado na Tabela 1

Tabela 1. Análise descritiva do tempo de AME (em dias). São Paulo, 2011.

Verifica-se, no Gráfico 1, que ao iniciar o monitoramento no 7º dia após o parto, 100% das mulheres praticavam o aleitamento exclusivo (AE). Entretanto, no 15º dia, 8% das mães já haviam introduzido complemento (AMCC), praticando assim o aleitamento misto. No 30º dia 15% das mães complementavam a amamentação com leite artificial e 1% já havia desmamado o bebê, oferecendo apenas leite artificial (AA). A prevalência do AME foi de 79%.

Gráfico 2. Dificuldades referidas pelas mães durante o monitoramento do aleitamento. São Paulo, 2011.

Dentre as dificuldades encontradas pelas mães ao logo do monitoramento do AM as mais referidas foram: insegurança, gemelaridade, prótese mamaria, leite fraco/ausência de leite, fissura/escoriação dos mamilos, sensibilidade mamilar e pega.

Algumas situações expressas pelas mães despertavam nelas a sensação de insegurança em relação ao AM como o choro intenso dos bebês, medo de que engasgassem, medo de refluxo e sonolência da criança.

Discussão

O perfil sociodemográfico das mães que participaram do estudo difere, em alguns aspectos, do perfil das mulheres de outros estudos realizados com populações menos favorecidas. Esta diferença era esperada uma vez que as participantes da pesquisa atual residem em bairro nobre de São Paulo ou advém de suas circunvizinhanças.

Comparando o perfil destas mães com as de outros estudos de prevalência de AM8, 7 verifica-se que elas têm maior nível de escolaridade, média de idade maior, a maioria é casada, tem trabalho remunerado e realizou parto cesariano.

A mediana e a prevalência de AME observadas neste estudo foram superiores ao identificado na última pesquisa nacional de prevalência de AM8, que apontou mediana de 54 dias e, prevalência de 41%.

As taxas de aleitamento materno exclusivo, no Brasil, estão em ascensão, porém continuam abaixo do recomendado pela OMS, que é de 180 dias. O percentual de 79% de crianças em AME deste estudo pode ser considerado adequado, uma vez que a OMS atribui este conceito quando de 50% a 89% das crianças menores de seis meses encontram-se em AME9.

Entretanto, esperava-se uma média maior de AME, uma vez que as mães pertencem a uma classe social mais privilegiada e tem nível de escolaridade elevado, pontos considerados importantes na manutenção do AME. Além disto, 100% delas referiram que pretendiam amamentar de forma exclusiva até seis meses de vida do bebê. Estudo10 revela que as mães, que pretendiam amamentar por menos de 6 meses, tiveram 2,3 vezes mais chances de interromper o AM em 4 meses em comparação àquelas que pretendiam amamentar por mais de 12 meses.

Apesar do perfil sociodemográfico das mães ser diferenciado, observou-se que as dificuldades apontadas por elas, as inseguranças e os mitos relativos ao AM, são os mesmos dos encontrados em estudos realizados com mães com perfil menos privilegiado.

Dentre os problemas referidos pelas mães, durante o monitoramento, a sensibilidade mamilar foi o problema apontado desde o 7ºD (37,2%). A mulher, ao iniciar a amamentação, pode sentir os mamilos sensíveis, dolorosos o que pode evoluir para o trauma mamilar. Este problema quando instalado pode interferir desfavoravelmente na prática do AME. Observa-se que, no mesmo período (7°D), houve também a queixa de trauma mamilar (fissura e escoriação), entretanto, em percentuais menores Estes achados podem ser atribuídos à dificuldade na pega, problema referido durante todo o período de monitoramento.

De acordo com a literatura11, os primeiros 14 dias após o parto são cruciais para a prática correta da amamentação, pois é nesse período que a lactação se estabelece, além de ser um período de intenso aprendizado.

A percepção de “leite fraco” ou “pouco leite” atingiu percentual de 40% no 60º dia e começou a ser mencionado mais intensamente no 30º dia. É importante ressaltar que estas percepções não são verdadeiras e estão ligadas aos mitos que envolvem o AM que estão fortemente arraigados à cultura brasileira. Os resultados do estudo atual parecem indicar que estes mitos permeiam não só o imaginário das mães de classe social menos privilegiada, mas estão presentes também nas classes economicamente mais favorecidas.

Estudo12 de revisão de literatura sobre os mitos do AM apontam estas percepções das mães e enfatizam que elas são responsáveis pelo desmame e ou complementação precoces, pois trazem insegurança à mãe quanto à sua capacidade de produzir leite e nutrir adequadamente a criança.

Outros problemas mencionados pelas mães foram a gemelaridade e a prótese de mama. Estes dois fatores a rigor não impedem a amamentação, mas como outras situações podem gerar insegurança na nutriz. As cirurgias plásticas mamárias de redução ou aumento e de implantes, teoricamente, não deveriam prejudicar o processo de amamentar. Porém, dependendo da técnica cirúrgica utilizada, podem alterar as condições de integridade e funcionamento fisiológico das mamas e dificultar ou até mesmo impedir a amamentação 13,14, principalmente naquelas mulheres submetidas à técnica de transposição do complexo areolomamilar.

Estudo realizado no Brasil15 que comparou o tempo de amamentação de mulheres submetidas à cirurgia redutora das mamas pela técnica de transposição e das não submetidas à cirurgia, identificou que as mulheres que sofreram mamoplastia redutora tiveram um tempo significantemente mais curto na duração da amamentação. A prevalência do AME no primeiro mês foi de 21% em mulheres com cirurgia de redução contra 70% nas que não realizaram cirurgia. Aos quatro meses, essa prevalência caiu para 4% no grupo com cirurgia e 22% para as sem cirurgia, o que sugere que a cirurgia redutora pode ter impacto negativo na amamentação.

Quanto à gemelaridade, é comum a ansiedade da mulher em relação à dúvida de conseguir ou não prover leite suficiente para alimentar dois ou mais bebês e muitas acabam por recorrer à complementação do LM.

Apesar das constantes dúvidas das mães, sabe-se que o organismo da mulher é capaz de produzir leite suficiente para amamentar os filhos nos primeiros seis meses de vida, independentemente de ter um ou mais bebês ao mesmo tempo. Se a mãe amamentar com frequência, terá leite suficiente para seus bebês, pois é a sucção que faz a glândula produzir leite. Muitas vezes as mães deixam de praticar a amamentação por falta de informação e orientação correta que deveria acontecer, de preferência, desde o pré-natal e continuar ao longo do pós-parto16.

Observa-se, ainda no gráfico 2 que as situações que geraram insegurança nas mães persistiram até o 45ºD. Após este período, provavelmente as mães foram adquirindo mais confiança em si e conhecendo melhor seus bebês O entendimento da mãe sobre as necessidades do filho é fundamental para evitar sentimentos de ansiedade e frustrações17.

Um ponto a ser ressaltado foi a introdução precoce do leite artificial como complemento ao leite materno Das mães entrevistadas que iniciaram o complemento ou que desmamaram precocemente 82,8% mencionaram que a orientação foi realizada pelo pediatra, e apenas 17,2% por iniciativa própria. Esses dados corroboram com a literatura, que atribui aos pediatras e não as mães, a responsabilidade pela interrupção precoce do AME no Brasil18,19.

CONCLUSÕES

Os resultados deste estudo reforçam cada vez mais a necessidade de intervenções do profissional de forma preventiva desde o pré-natal, durante o puerpério imediato e, principalmente, no acompanhamento efetivo do manejo prático do AM após a alta hospitalar.

Um programa de apoio às mães no puerpério poderia ser um diferencial na assistência prestada e um incentivo ao AME. As mulheres, ao saberem que contam com um serviço de apoio ao qual poderiam recorrer em caso de necessidade, sentir-se-iam mais seguras e confiantes.

Referências

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