Revista  Enfermagem Atual

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Manejo da Dermatite Associada à Incontinência: Utilização de Creme com Função Barreira

Management of Incontinence Associated Dermatitis to: Use Cream Barrier Function
  • Viviany Alves Soares
  • Fernanda Matheus Estrela
  • Maira Del Rey
  • Tamara Angélica da Rocha
  • Fabiana Macêdo
  • Bárbara Sueli Gomes Moreira
  • Nadirlene Pereira Gomes

RESUMO

Dermatite Associada à Incontinência (DAI) é uma manifestação clínica de lesões de pele associadas à umidade em pacientes com incontinência fecal ou urinária. As lesões provocadas caracterizam-se por erosão da epiderme e aparência macerada da pele. A prevalência de DAI varia entre 3,4% e 25% e cerca de 50% das pessoas com fezes ou incontinência urinária são afetados. Relato de caso clínico, em um hospital particular de Salvador, Bahia, Brasil, em agosto de 2012. Homem, 53 anos, portador de HIV, que durante uma internação prolongada em UTI e quadro clínico grave desenvolveu dermatite associada à incontinência fecal evidenciado por lesões abrasivas em região peniana e bolsa escrotal. O paciente foi acompanhado pelos enfermeiros do Grupo de Atenção à Lesões de Pele (GALP) do hospital, sendo adotado cuidados de limpeza frequente da região acometida com sabão neutro e aplicação três vezes ao dia de uma fina camada do Creme Barreira, (creme hidrofóbico que funciona como uma barreira ideal para proteger hidratar e também recuperar o pH natural da pele), com o objetivo de proteger e regenerar a pele lesionada. Após 20 dias de tratamento, mesmo com a manutenção do quadro de diarreia, observou-se excelente recuperação da área lesionada e proteção da pele exposta aos efluentes. Constatou-se que o creme com função barreira proporciona proteção efetiva na pele e cria um ambiente propício à rápida regeneração celular. O uso do Creme Barreira na prevenção no tratamento de Dermatites Associadas à Incontinência evidenciou resultados excelentes por ser de fácil aplicação, formando uma camada translúcida, não sendo necessário remover resíduos à cada troca, o que minimiza a dor e desconforto do paciente com a dermatite, permitindo regeneração rápida da pele lesionada. Evidências científicas recomendam o uso do creme de barreira associado a uma rotina de cuidados pautados na higiene e proteção da pele, sendo estes, eficientes para a prevenção e tratamento da DAI, além de ser um desafio da instituição na busca da qualidade de assistência de enfermagem.

Palavras-chave: Dermatite, incontinência, tratamento, enfermagem

INTRODUÇÃO

Dermatite associada à incontinência (DAI) é uma manifestação clínica de lesões de pele associadas à umidade comum em pacientes com incontinência fecal ou urinária. Trata-se de uma inflamação decorrentes do contato da pele perineal, perigenital, perianal e adjacências com urina e fezes. Estas lesões caracterizam-se por erosão da epiderme e aparência macerada.1

Denomina-se por erosão da epiderme e aparência macerada.1 Denomina-se pele como o maior órgão do corpo e a primeira linha de defesa do organismo contra vários tipos de agressões físicas, químicas e mecânicas, apresentando variadas funções: proteção, sensibilidade, excreção, reparação e manutenção da homeostase em um indivíduo.2 A pele é formada por duas camadas distintas, a derme e a epiderme. A epiderme é composta por diversas camadas sobrepostas, sendo a mais externa denominada estrato córneo.1 O estrato córneo é constituído por células denominadas corneócitos, protegidas e cobertas por lipídios, o que confere função de barreira da pele.

O estrato córneo normal regula os níveis naturais de perda de água da pele. Uma vez alterada a função de barreira da pele, o organismo fica exposto a vários fatores que promovem danos aos tecidos.

Dessa forma, a perda da integridade da pele, pode ser provocada por lesões diversas, dentre elas a Dermatite Associada à Incontinência (DAI).

A expressão “DAI” foi escolhida no consenso de 2007 por descrever adequadamente a resposta da pele à exposição crônica a materiais urinários e/ou fecais, identificar a fonte de irritação e informar que uma área maior que o períneo pode ser afetada.

A prevalência de DAI varia entre 3,4% e 25%. Cerca de 50% das pessoas com fezes ou incontinência urinária são afetados por DAI. A ruptura da pele pode ter um significativo efeito sobre a sua integridade física e psicológica bem-estar do paciente.3

A incontinência é um especial fator de risco tanto para a DAI como para as Ulceras por pressão devido os efeitos nocivos das fezes e urina na pele. Quatro principais fatores de risco contribuem para a ruptura da pele quando relacionado à incontinência: Umidade, PH da pele, colonização por micro-organismos e atrito.

A incontinência urinária leva a super-hidratação da pele, enquanto a ureia e o amoníaco da urina leva a alcalinidade. A incontinência fecal provoca mais danos na pele do que a incontinência urinária devido ao conteúdo bacteriano e a presença de enzimas que podem ser corrosivas na presença de um ph alcalino.4

Pacientes com dupla-incontinência tem maior susceptibilidade à ruptura da pele, principalmente quando a mobilidade é limitada. As limpezas frequentes aumenta a permeabilidade do estrato córneo e reduz a função de barreira da pele. O pH alcalino favorece as colonizações por fungos e bactérias presente na flora da pele ou provenientes do trânsito gastrointestinal.

Para a prevenção da dermatite associada à incontinência existem recomendações para hidratação da pele nos quais os cremes hidratantes preferencialmente emolientes são indicados4

As recomendações para proteção da pele e tratamento da DAI orientam o uso de creme hidratante oclusivo e cremes protetores a base de dimeticona. Os protetores a base de dimeticona são fabricados com polímeros de silicone como ingredientes ativos, protegem a pele de irritantes e têm melhor propriedade hidratante3

Concluiu-se que a utilização de uma espuma de limpeza, juntamente com uma barreira protetora é mais eficaz do que a água e sabão. O creme barreira ideal deve ser hipoalergênico, transparente, respirável, hidratação, fácil de aplicar e remover.3

Objetivo

Relatar um caso de tratamento de uma dermatite peniana e inguinal associada à incontinência fecal e descrever os resultados obtidos com o uso do Creme Barreira.

Método

Trata-se de relato de caso de um paciente portador de HIV, que durante uma internação prolongada em UTI e quadro clínico grave desenvolveu dermatite associada à incontinência fecal.

O acompanhamento foi realizado em um hospital particular de grande porte na cidade de Salvador-BA.

A avaliação e evolução foram realizadas através de exame clínico e registros fotográficos por uma máquina digital, antes de ser iniciado o tratamento e no decorrer da evolução da lesão.

O atendimento foi acompanhado pela equipe multidisciplinar da UTI geral, incluindo enfermeiras do grupo de atenção às lesões de pele.

Paciente N.L.C, 53 anos, portador de HIV com tratamento regular à 05 anos, internado em uma Unidade de Terapia Intensiva no dia por quadro de insuficiência respiratória aguda, sendo diagnosticado SARA ( Síndrome da angústia respiratória aguda). Permaneceu com quadro clínico grave durante aproximadamente quarenta dias, cursando durante este período com anemia, pneumonia associada à ventilação mecânica, insuficiência renal aguda com realização de hemodiálise, polineuropatia do paciente crítico, diarréia e enterorragia associada à coagulopatia. Evoluiu, em decorrência do quadro apresentado , com lesões abrasivas na região do pênis e períneo assim como o desenvolvimento de úlcera por pressão em região sacral.

Foi acompanhado pelos enfermeiros do Grupo de Atenção à Lesões de Pele ( GALP) do hospital, sendo adotado tratamento com o uso do Creme Barreira para proteção e regeneração da pele lesionada por dermatite. Dessa forma, adotou-se cuidados de enfermagem como limpeza freqüente após episódios de diarreia, o uso de sabão neutro e aplicação de uma fina camada do Creme Barreira nas regiões peniana, perineal e inguinal.

O Creme com função barreira utilizado é um creme hidrofóbico que funciona como uma barreira ideal para proteger hidratar e também recuperar o pH natural da pele. Possui propriedades efetivas de barreira para proteger a pele íntegra contra efluentes agressivos oriundos de ostomias, na prevenção de dermatites associadas à incontinência e também, radiodermites de pacientes em tratamento por radioterapia.

Fotos – acompanhamento do caso


Além disso, é indicado o uso na pele peri-lesional para proteção contra o excesso de umidade que pode causar maceração e atraso no processo de cicatrização de feridas. Possui capacidade de hidratar e proteger a pele íntegra contra o ressecamento provocado pelo uso de botas de una, trazendo maior conforto para os pacientes.

Creme Barreira utilizado no caso é composto de água, parafina líquida, petrolato, cera microcristalina, oleato de glicerol, álcool de lanolina, ácido cítrico, citrato de magnésio, ciclometicone, glicerina, metilparabeno, propilparabeno e propilenoglicol.

RESULTADOS

Após 20 dias de tratamento, mesmo com a manutenção do quadro de diarréia e episódios de enterorragia, observou-se excelente regeneração da pele lesionada e proteção da pele exposta aos efluentes. Constatou-se que o produto proporciona barreira efetiva na pele e cria um ambiente propício à regeneração celular.

Conclusão

O uso do Creme Barreira na prevenção e tratamento de Dermatites Associadas à Incontinência evidenciou resultados excelentes. Além disso é de fácil aplicação, forma uma camada translúcida, não sendo necessário remover resíduos à cada troca, o que minimiza a dor e desconforto do paciente com a dermatite, permitindo regeneração rápida da pele lesionada.

Considerações

Diante dos resultados obtidos com o caso relatado, e demais casos com boa evolução, o Grupo de Atenção à Lesões de Pele do hospital em questão introduziu no protocolo de prevenção e tratamento de DAIs o Creme barreira como opção de prevenção para pacientes de alto risco para desenvolver dermatites e como tratamento para pacientes com dermatites já instaladas.

Referências

1. Domanski RC, Borges E. Manual para prevenção de lesões de pele: recomendações baseadas em evidências. Ed. Rubio, 2012.p 103-15

2. Carvalho, E S Como Cuidar de Pessoas com Feridas: desafios para a prática multiprofissional. Editora Atualiza. Salvador, 2012. p.76-8

3. Bardsley A. Incontinence-associated dermatitis: looking after skin. Nursing & Residential Care 2012(14):7.

4. Voegeli D. Moisture-associated skin damage: aetiology, prevention and treatment. British Journal of Nursing, 2012. Vol 21, Nº 9.